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Uma Nova Etapa na Vida a partir da Leitura de um Livro

Somos subeducados, atrasados e analfabetos; e neste particular confesso que não faço grande distinção entre a ignorância do meu concidadão que não sabe absolutamente ler nada, e a ignorância do que apenas aprendeu a ler o que se destina a crianças e inteligências medíocres.

Deveríamos estar à altura dos grandes da Antiguidade, mas em parte por saber primacialmente quão grandes eles foram. Somos uma raça de homens-passarinhos; nos nossos voos intelectuais mal nos alçamos um pouco acima das colunas do jornal.

Nem todos os livros são tão insípidos como os seus leitores. É provável que haja palavras endereçadas exatamente à nossa condição, as quais, se de facto pudéssemos ouvi-las e entendê-las, seriam mais salutares às nossas vidas que a própria manhã ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face inédita das coisas.
Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro! Deve existir para nós o livro capaz de explicar os nossos mistérios e de revelar outros insuspeitados. As coisas que ora nos parecem inexprimíveis, podemos encontrá-las expressas algures.
As mesmas questões que nos inquietam, intrigam e confundem, foram postas por sua vez a todos os homens sábios; nenhuma foi omitida, e cada um deles respondeu de acordo com a sua capacidade, por meio de palavras ou da própria vida. De mais a mais, juntamente com a sabedoria aprendemos a liberalidade.

Henry David Thoreau, in ‘Walden’

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O cangaceiro empalador

Publiquei esse conto em outros espaços virtuais e a repercussão foi estranhamente de taxá-lo de discurso homofóbico genocida em face da população nordestina onde só tem cabra macho pra chuchu! Eita gente arretada de porreta nas críticas!

Eis o conto:

O cangaceiro empalador

Reino Encantado era um vilarejo sertanejo onde nem o demo queria dar as fuças. Seria deboche chamar o lugar de reino quiçá de encantado. O lugarejo era toca de jagunços e fugitivos da lei e salpicado de imoralidades até mesmo entre brutos afeminados às escondias.

Numa noitinha dessas enquanto as lavadeiras batiam boca umas com as outras por causa de ninharias e fofocas Jerimum chegou a galope em seu casebre pouco mais adelante no meio da mata onde seu companheiro Heleno o esperava com ansiedade e cheio de arrependimento. Ansiedade era no fundo por temer que o caixeiro viajante que era desertor da tropa que combateu um jagunço famoso nas redondezas um dia o fosse pro cárcere. Arrependimento era por ter cedido às imoralidades e bestialidades carnais duma vida de matrimonio dum macho com outro. A coisa era levada fora da vista dos outros para que o padre da paróquia um velho que mais parecia bruxo do que sacerdote não os excomungasse.

Jerimum chega tinhoso, desmonta de sua égua seca num salto só, entra no casebre de barro praguejando e tirando suas vestes empoeiradas. Heleno já sabendo que a noite seria triste entre sovas e abraços fica no seu canto encolhido sem saber o que dizer. Num instante Jerimum fita olho no olho e Heleno diz com voz embargada e trêmulo: Não quero mais ficar aqui com ocê não Jé. O outro homem corpulento e avantajado na pança se aproxima segura no queixo de Heleno e diz: Também nem te quero mais coelhinho branco de Minas.

Heleno sem saber se ficava feliz ou intrigado com a resposta do amante pergunta o motivo e Jerimum responde: É que eu tava lá pelas banda da serra e encontrei quem me fez feliz mais do que ocê seu abestado. Jerimum continua: Um rapazola mais condizente com a obediência que quero nas cousa me deixou enfeitiçado com aquela conversa todinha que ocê já sabe.

Heleno responde em tom de alívio imediato: Sei bem que ocê prefere quem faça seus gosto sem pestanejar senão tu agride qualquer um com seus modo bruto e pexera né não? Jerimum apenas consente com a cabeça e coça a cabeça calva numa tranqüilidade incomum e diz entre um suspiro: Sabe que a vida de nois nessa terrinha leviana num é do gosto de Deus e eu já faz desde pequeno que sou assim dado a essas cousa. Jerimum se agacha pega um objeto qualquer do chão do casebre e continua: Ocê faça suas trouxas e escafede da minha vista senão te faço comer capim pela raiz Heleno. Não te quero mais aqui, amanhã cedinho se tiver aqui eu te mato sem pensar de novo nisso. Heleno arregala seus olhos tira o cabelo de tigela da frente da vista e começa a chorar de alegria contidamente e sai em disparada arrumar suas coisas e some pelo sertão na madrugada.

Jerimum de manhã acorda cedo e oriçado e quando percebe que Heleno tinha ido pensa consigo que poderia se mudar daquele lugar sem eira nem beira e ir morar com Chiquinho seu novo padrinho de coração numa cidade de verdade.

Pra saber Chiquinho era um moço ainda novo de jeito sonso e chegado em bolinar em homens mais velhos dados aqueles atrevimentos que a bíblia condena. Era filho de gente abastada, porém o pai tocou logo cedo o moleque das terras por perceber que o filho era fraco pra lida na lavoura e afeminado quando brincava com as irmãs. Era a decepção do coroné seu pai e da mãe devota de reza diária na capela do lugar.

Jerimum e Chiquinho haviam se encontrado e se afeiçoado logo na primeira vez que se encontraram numa feira onde um cantador de cordel recitava contos de jagunços, é daquele mesmo que Jerimum tinha combatido tempos antes em alguma peleja no sertão. Os dois logo trocaram um dedo de prosa e foram para uma venda comer macaxeira às custas de Jerimum que tinha recebido um soma boa vendendo por ter vendido a herança da vó que tinha batido as botas tempinho antes.

Jerimum com nó no peito pegou sua égua cansada e voltou pra cidade reencontrar seu novo amado sem pensar em mais nadinha. Na viagem o sol parecia que batia a pino fosse qualquer hora e quando Jerimum chegou na cidade logo avistou Chiquinho na pracinha. Mal teve tempo de saudar o rapazola e um estampido de tiro veio duma venda e o alvoroço nas ruelas se formou com toda gente correndo.

Pela porta da venda saiu o dono do estabelecimento cambaleando com as mãos nas tripas ainda vivo, logo atrás dele eis que surge Altério Levino o jagunço que Jerimum tinha combatido nos recantos do sertão quando ainda era da tropa. Altério Levino em passo lento e meio embriagado foi na direção do comerciante com uma pistola já engatilhada, olhou pro pobre diabo que ali se esvaia em sangue apontou a arma, mas na hora de puxar o gatilho mudou de pensamento e guardou calmamente a arma na cintura da calça.

Olhou pro céu fez o sinal da cruz e disse alto: Eita terrinha de homi frouxo que não honra a mulher que casou e deixa ela na casa pronta pra servir de meretriz pra cangaceiro que nem eu! Oxe! Mas eu hoje tava é com vontade é de destripar memo era afeminado que tem aqui nessas bandas podre onde homi casa com homi! Altério Levino coçou a barba grande e emaranhada, acendeu um palheiro e voltou tomar o resto da cachaça na venda sem ninguém o incomodar.

Nisso Jerimum e Chiquinho já tavam picando o trecho dali, pois ao testemunhar a cena e ouvir as palavras de Altério Levino mijaram pelo dedão do pé e foram urinado mesmo para o vilarejo onde passaram uns tempos sossegados na maior libidinagem vivendo de resto da renda da herança da vó de Jerimum.

Certo dia eis que surge a notícia que o padre do vilarejo tinha morrido e Jerimum e Chiquinho foram no velório do vigário e quando chegaram perto do caixão para dar a ultima olhada no defunto comentaram entre si cochichados: Eita bem que ele poderia ter casado a gente né Jé? O velho caixeiro respondeu: É mesmo bem que nois podia ser que nem marido e mulher e até fazer uma festa.

Logo que terminaram de falar isso, sem que tivessem notado havia um sujeito de cabeça baixa e chapéu segurado no peito que rendia as últimas homenagens fúnebres ao vigário. O homem levantou a cabeça e logo a barba grande já saltou as vistas de Jerimum que ficou tremendo mais que vara verde sem conseguir falar um azinho sequer. Era o jagunço matador Altério Levino que era devoto daquele padre por julgar que o mesmo tinha poderes e rezava para ele exterminar com a putaria daquele vilarejo visto que sermão não dava jeito naquela genta imoral e perniciosa.

Altério Levino levantou a cabeça e com um sorriso do demo estampado na cara disse logo então: Eita, mais é pra isso que eu vim pra cá mesmo oxente! É pra cumprir a promessa que eu fiz ao vigário de acabar com essa raça de afeminado e beber o defunto desse sacerdote que tinha pacto mais com o cramunhão que com os anjinhos.

Prosseguiu o cangaceiro barbado: Mas ceis dois eu faço questão de fazer primeiro, inté porque to reconhecendo esse cabra safado, é não se amolenga não nos cambito seu fi duma égua ronca e fuça, eu sei quem ocê é, sei sim, tu é aquele recruta covarde que fugiu quando dei cabo no volante da tropa que me perseguia nas bandas do Jalapão! Ah é sim é ocê mesmo e continua covarde!

Segue o discurso do jagunço cachaceiro: O que eu não sabia era que tu era flor que dá em pau, inté tinha ouvido falar que ocê era o marido desse rapazola que mais parece calango desnutrido… Oxe! Que misere vai ser hoje aqui nessa terra, e hoje que o sarapatel de bucho de afeminado vai alimentar os corvo – Altério Levino puxa um facão de cortar mato grosso e sem anunciar nova ameaça logo enfia o facão em Chiquinho que cai estrebuchando no chão do velório.

Jerimum cai chorando aos berros sobre o corpo do companheiro e logo sente o cano da espingarda na nuca e o sotaque sergipano cerrado de Altério Levino: Ocê se alevante seu vadio de pai e mãe, que agora eu quero ver a tua fuça antes de tu ir pros quintos dos inferno sentar no colo do demo! Ah seu mequetrefe covarde que fugiu da tropa, saiba que ocê é ultimo que restou matar daquele bando de milico frouxo que num honra a farda que veste! Ah é sim! Sim sinhô ou… ou devo dizer senhora?

Jerimum implora pela vida em vão… chora mais que criança desmamada na garapa e treme mais que cortina em ventania e se ajoelha pedindo clemência. Enquanto isso o cangaceiro desalmado engatilha a carabina e vai enfiando na boca do covarde ora viúvo afeminado que num ato sem precedentes começa a chupar o cano da arma deixando o cangaceiro jagunço indignado que diz: Arre égua! Mas será que nem na hora da morte esse sujeito toma tento? Eita que sujeito mais devasso e mais curva de rio meu sinhô do Bonfim!

Altério Levino retira o cano da boca de Jerimum olha sério para ele e diz: Ocê num merece morrê não vice? Ocê merece outra coisa bem pior que a morte aqui no meu entendimento! O jagunço pega uma corda e amarra Jerimum como se fosse novilho e coloca na garupa de seu cavalo capenga e leva até uma colméia debaixo duma árvore e faz um rasgo nos fundilhos do refém passa mel no fiofó do dito cujo e deixa as abelhas fazerem o serviço enquanto enrola um palheiro…

O cangaceiro fica horas e horas vendo as abelhas torturarem Jerimum que geme com um pano abafando os berros de dor de cada ferroada. Enquanto o suplício de Jerimum continua o jagunço arretado de ódio pela demora da ferroada fatal resolve dar cabo no serviço e corta um pedaço de galho da árvore aponta e começa a empalar no ânus de Jerimum até o galho furar as tripas e todo resto e sair pelo pescoço banhando de sangue afeminado a terra seca do sertão…

Dado cabo no serviço o cangaceiro vai até a casa de Jerimum, saqueia o resto da herança, toca fogo no casebre cospe no chão e diz: Eita mais fazia tempo que eu tava com vontade de matar esses cabras afeminados que serve de fêmea pra outro homi!

Leonardo Levi está aqui o novo conto. Se quiser incluir no concurso fica a seu critério: 

O cangaceiro empalador

Reino Encantado era um vilarejo sertanejo onde nem o demo queria dar as fuças. Seria deboche chamar o lugar de reino quiçá de encantado. O lugarejo era toca de jagunços e fugitivos da lei e salpicado de imoralidades até mesmo entre brutos afeminados às escondias.

Numa noitinha dessas enquanto as lavadeiras batiam boca umas com as outras por causa de ninharias e fofocas Jerimum chegou a galope em seu casebre pouco mais adelante no meio da mata onde seu companheiro Heleno o esperava com ansiedade e cheio de arrependimento. Ansiedade era no fundo por temer que o caixeiro viajante que era desertor da tropa que combateu um jagunço famoso nas redondezas um dia o fosse pro cárcere. Arrependimento era por ter cedido às imoralidades e bestialidades carnais duma vida de matrimonio dum macho com outro. A coisa era levada fora da vista dos outros para que o padre da paróquia um velho que mais parecia bruxo do que sacerdote não os excomungasse.

Jerimum chega tinhoso, desmonta de sua égua seca num salto só, entra no casebre de barro praguejando e tirando suas vestes empoeiradas. Heleno já sabendo que a noite seria triste entre sovas e abraços fica no seu canto encolhido sem saber o que dizer. Num instante Jerimum fita olho no olho e Heleno diz com voz embargada e trêmulo: Não quero mais ficar aqui com ocê não Jé. O outro homem corpulento e avantajado na pança se aproxima segura no queixo de Heleno e diz: Também nem te quero mais coelhinho branco de Minas. 

Heleno sem saber se ficava feliz ou intrigado com a resposta do amante pergunta o motivo e Jerimum responde: É que eu tava lá pelas banda da serra e encontrei quem me fez feliz mais do que ocê seu abestado. Jerimum continua: Um rapazola mais condizente com a obediência que quero nas cousa me deixou enfeitiçado com aquela conversa todinha que ocê já sabe. 

Heleno responde em tom de alívio imediato: Sei bem que ocê prefere quem faça seus gosto sem pestanejar senão tu agride qualquer um com seus modo bruto e pexera né não? Jerimum apenas consente com a cabeça e coça a cabeça calva numa tranqüilidade incomum e diz entre um suspiro: Sabe que a vida de nois nessa terrinha leviana num é do gosto de Deus e eu já faz desde pequeno que sou assim dado a essas cousa. Jerimum se agacha pega um objeto qualquer do chão do casebre e continua: Ocê faça suas trouxas e escafede da minha vista senão te faço comer capim pela raiz Heleno. Não te quero mais aqui, amanhã cedinho se tiver aqui eu te mato sem pensar de novo nisso. Heleno arregala seus olhos tira o cabelo de tigela da frente da vista e começa a chorar de alegria contidamente e sai em disparada arrumar suas coisas e some pelo sertão na madrugada.       

Jerimum de manhã acorda cedo e oriçado e quando percebe que Heleno tinha ido pensa consigo que poderia se mudar daquele lugar sem eira nem beira e ir morar com Chiquinho seu novo padrinho de coração numa cidade de verdade.

Pra saber Chiquinho era um moço ainda novo de jeito sonso e chegado em bolinar em homens mais velhos dados aqueles atrevimentos que a bíblia condena. Era filho de gente abastada, porém o pai tocou logo cedo o moleque das terras por perceber que o filho era fraco pra lida na lavoura e afeminado quando brincava com as irmãs. Era a decepção do coroné seu pai e da mãe devota de reza diária na capela do lugar. 

Jerimum e Chiquinho haviam se encontrado e se afeiçoado logo na primeira vez que se encontraram numa feira onde um cantador de cordel recitava contos de jagunços, é daquele mesmo que Jerimum tinha combatido tempos antes em alguma peleja no sertão. Os dois logo trocaram um dedo de prosa e foram para uma venda comer macaxeira às custas de Jerimum que tinha recebido um soma boa vendendo por ter vendido a herança da vó que tinha batido as botas tempinho antes.

Jerimum com nó no peito pegou sua égua cansada e voltou pra cidade reencontrar seu novo amado sem pensar em mais nadinha. Na viagem o sol parecia que batia a pino fosse qualquer hora e quando Jerimum chegou na cidade logo avistou Chiquinho na pracinha. Mal teve tempo de saudar o rapazola e um estampido de tiro veio duma venda e o alvoroço nas ruelas se formou com toda gente correndo.

Pela porta da venda saiu o dono do estabelecimento cambaleando com as mãos nas tripas ainda vivo, logo atrás dele eis que surge Altério Levino o jagunço que Jerimum tinha combatido nos recantos do sertão quando ainda era da tropa. Altério Levino em passo lento e meio embriagado foi na direção do comerciante com uma pistola já engatilhada, olhou pro pobre diabo que ali se esvaia em sangue apontou a arma, mas na hora de puxar o gatilho mudou de pensamento e guardou calmamente a arma na cintura da calça. 

Olhou pro céu fez o sinal da cruz e disse alto: Eita terrinha de homi frouxo que não honra a mulher que casou e deixa ela na casa pronta pra servir de meretriz pra cangaceiro que nem eu! Oxe! Mas eu hoje tava é com vontade é de destripar memo era afeminado que tem aqui nessas bandas podre onde homi casa com homi! Altério Levino coçou a barba grande e emaranhada, acendeu um palheiro e voltou tomar o resto da cachaça na venda sem ninguém o incomodar.

Nisso Jerimum e Chiquinho já tavam picando o trecho dali, pois ao testemunhar a cena e ouvir as palavras de Altério Levino mijaram pelo dedão do pé e foram urinado mesmo para o vilarejo onde passaram uns tempos sossegados na maior libidinagem vivendo de resto da renda da herança da vó de Jerimum.

Certo dia eis que surge a notícia que o padre do vilarejo tinha morrido e Jerimum e Chiquinho foram no velório do vigário e quando chegaram perto do caixão para dar a ultima olhada no defunto comentaram entre si cochichados: Eita bem que ele poderia ter casado a gente né Jé? O velho caixeiro respondeu: É mesmo bem que nois podia ser que nem marido e mulher e até fazer uma festa. 

Logo que terminaram de falar isso, sem que tivessem notado havia um sujeito de cabeça baixa e chapéu segurado no peito que rendia as últimas homenagens fúnebres ao vigário. O homem levantou a cabeça e logo a barba grande já saltou as vistas de Jerimum que ficou tremendo mais que vara verde sem conseguir falar um azinho sequer. Era o jagunço matador Altério Levino que era devoto daquele padre por julgar que o mesmo tinha poderes e rezava para ele exterminar com a putaria daquele vilarejo visto que sermão não dava jeito naquela genta imoral e perniciosa. 

Altério Levino levantou a cabeça e com um sorriso do demo estampado na cara disse logo então: Eita, mais é pra isso que eu vim pra cá mesmo oxente! É pra cumprir a promessa que eu fiz ao vigário de acabar com essa raça de afeminado e beber o defunto desse sacerdote que tinha pacto mais com o cramunhão que com os anjinhos. 

Prosseguiu o cangaceiro barbado: Mas ceis dois eu faço questão de fazer primeiro, inté porque to reconhecendo esse cabra safado, é não se amolenga não nos cambito seu fi duma égua ronca e fuça, eu sei quem ocê é, sei sim, tu é aquele recruta covarde que fugiu quando dei cabo no volante da tropa que me perseguia nas bandas do Jalapão! Ah é sim é ocê mesmo e continua covarde! 

Segue o discurso do jagunço cachaceiro: O que eu não sabia era que tu era flor que dá em pau, inté tinha ouvido falar que ocê era o marido desse rapazola que mais parece calango desnutrido... Oxe! Que misere vai ser hoje aqui nessa terra, e hoje que o sarapatel de bucho de afeminado vai alimentar os corvo  – Altério Levino puxa um facão de cortar mato grosso e sem anunciar nova ameaça logo enfia o facão em Chiquinho que cai estrebuchando no chão do velório.     

Jerimum cai chorando aos berros sobre o corpo do companheiro e logo sente o cano da espingarda na nuca e o sotaque sergipano cerrado de Altério Levino: Ocê se alevante seu vadio de pai e mãe, que agora eu quero ver a tua fuça antes de tu ir pros quintos dos inferno sentar no colo do demo! Ah seu mequetrefe covarde que fugiu da tropa, saiba que ocê é ultimo que restou matar daquele bando de milico frouxo que num honra a farda que veste! Ah é sim! Sim sinhô ou... ou devo dizer senhora?

Jerimum implora pela vida em vão... chora mais que criança desmamada na garapa e treme mais que cortina em ventania e se ajoelha pedindo clemência. Enquanto isso o cangaceiro desalmado engatilha a carabina e vai enfiando na boca do covarde ora viúvo afeminado que num ato sem precedentes começa a chupar o cano da arma deixando o cangaceiro jagunço indignado que diz: Arre égua! Mas será que nem na hora da morte esse sujeito toma tento? Eita que sujeito mais devasso e mais curva de rio meu sinhô do Bonfim! 

Altério Levino retira o cano da boca de Jerimum olha sério para ele e diz: Ocê num merece morrê não vice? Ocê merece outra coisa bem pior que a morte aqui no meu entendimento! O jagunço pega uma corda e amarra Jerimum como se fosse novilho e coloca na garupa de seu cavalo capenga e leva até uma colméia debaixo duma árvore e faz um rasgo nos fundilhos do refém passa mel no fiofó do dito cujo e deixa as abelhas fazerem o serviço enquanto enrola um palheiro...

O cangaceiro fica horas e horas vendo as abelhas torturarem Jerimum que geme com um pano abafando os berros de dor de cada ferroada. Enquanto o suplício de Jerimum continua o jagunço arretado de ódio pela demora da ferroada fatal resolve dar cabo no serviço e corta um pedaço de galho da árvore aponta e começa a empalar no ânus de Jerimum até o galho furar as tripas e todo resto e sair pelo pescoço banhando de sangue afeminado a terra seca do sertão...

Dado cabo no serviço o cangaceiro vai até a casa de Jerimum, saqueia o resto da herança, toca fogo no casebre cospe no chão e diz: Eita mais fazia tempo que eu tava com vontade de matar esses cabras afeminados que serve de fêmea pra outro homi!

Shakespeare era ele mesmo?

Intrigas, paixões, discórdias… O que parece descrição de uma peça de William Shakespeare é, ironicamente, parte dos tons shakespearianos do debate sobre a identidade do autor de sua obra.
Duvidar que o filho de um fabricante de luvas de Stratford-Upon-Avon é o mesmo gênio por trás de clássicos como Henrique V, Hamlet e Romeu e Julieta não é novidade. Mas os últimos anos trouxeram uma intensificação de argumentos. Em 2011, Hollywood embarcou de vez na onda cética com o filme Anônimo. Pelo argumento do filme, Shakespeare era apenas o testa de ferro do verdadeiro escritor talentoso, Edward de Vere, o Barão de Oxford. Em abril do ano passado, o contra-ataque veio na forma de Shakespeare Sem Sombra de Dúvida, uma coleção de ensaios reunindo alguns dos mais renomados estudiosos da obra do bardo na forma de um detalhado desmanche dos argumentos dos que duvidam da versão oficial dos fatos.

Assim como Montéquios e Capuletos, a questão da autoria também se divide em clãs tão passionais como os dos amantes da tragédia. Stratfordianos são os que defendem o status quo. Os oxfordianos advogam a causa de De Vere. O cenário se complica porque existem subdivisões entre os céticos, desde os que acenam com candidatos mais polêmicos a autor das peças e sonetos, como o poeta Francis Bacon, a acadêmicos que apenas levantam dúvidas sobre a história oficial – como é o caso de Bill Leahy, coordenador de um programa de pós-graduação em estudos autorais de Shakespeare da Universidade de Brunel, em Londres. “Existem razões suficientes para questionarmos se William Shakespeare de Stratford-Upon-Avon foi capaz de produzir esse imenso volume de peças e sonetos. Isso por si só é uma razão para estimularmos o debate e o estudo, cumprir nosso dever como acadêmicos”, afirma o expert em literatura do Período Elizabetano (o reinado de Elizabeth I, entre 1558 e 1603).

O problema é que colegas de Leahy não costumam receber com seriedade argumentos questionando a linha oficial. Stanley Wells, presidente do Shakespeare Birthplace Trust, a ONG que cuida do legado do poeta em Stratford-Upon-Avon, classifica o ceticismo como mera teoria conspiratória. Wells guardou mágoa especialmente do grupo de acadêmicos, atores e intelectuais que assinaram um manifesto online com apoio às teorias anti-stratfordianas. “Esse questionamento absurdo deixou de ser obra de amadores para se infiltrar em círculos mais sérios e isso é preocupante”, afirma Wells, autor de vários livros sobre a obra de Shakespeare.

Mas há razão para dúvidas? O problema é a falta de documentos sobre William Shakespeare. O pouco que se sabe sobre o homem que nasceu em Stratford é que viveu entre 1564 e 1616 e ganhou dinheiro trabalhando como ator, sócio do Globe Theatre em Londres e até como comerciante de grãos. Nenhum de seus manuscritos sobreviveu. O mais importante documento ligado a ele é o Primeiro Folio, uma antologia impressa de 36 peças publicadas em 1623 com a assinatura de Shakespeare e o mais antigo retrato do homem de Stratford.

Para alguém tão prolífico com a pena, a ausência de uma profusão de documentos ajuda a alimentar o ceticismo. Ainda mais porque um dos poucos registros deixados por William Shakespeare são seis assinaturas em que seu sobrenome, por sinal, é soletrado de maneiras diferentes, o que faz com que muitos anti-strat-fordianos usem as discrepâncias como evidência de que o filho do fabricante de luvas não teria cacife para produzir tamanho material. “Há estudos mostrando que o autor das peças e sonetos teria um vocabulário composto de 17 mil a 29 mil palavras. Me parece um pouco improvável que alguém com origens mais humildes no Período Elizabetano tivesse capacidade intelectual de produzir tamanha obra”, afirma o jornalista Mark Anderson, autor de Shakespeare by Another Name (“Shakespeare com outro nome”, em tradução livre), livro de 2006 que defende a causa de De Vere.

Oxfordianos têm boas suas razões para defender o barão. O argumento principal é que só alguém como De Vere, com enorme trânsito na corte, poderia exibir o conhecimento sobre bastidores da nobreza que tanto permeia as peças de Shakespeare envolvendo reis e aristocratas. Mais interessante é o fato de que o barão viveu na mesma Itália que é palco de alguns dos mais populares textos shakespearianos, como a Verona de Romeu e Julieta e a cidade de O Mercador de Veneza, funcionando como uma espécie de embaixador de Elizabeth I.

“Parece-me um nível de conhecimento fora de comum para alguém que, de acordo com o que há de registros oficiais, jamais saiu da Inglaterra, enquanto existe extensa evidência da passagem de De Vere pela Itália. Ele esteve nas dez cidades que Shakespeare cita em sua obra”, diz Anderson. O barão também foi um notório mecenas das artes, dono de duas companhias teatrais, além de escrever poemas. Mas De Vere morreu em 1604 e as peças continuaram aparecendo. Uma delas foi A Tempestade, que de acordo com estudiosos se baseou em um famoso naufrágio de 1609, envolvendo uma missão de povoamento enviada aos territórios hoje conhecidos como Estados Unidos.
Céticos também apontam para a mediocridade do testamento de Shakespeare. Escrito em linguagem nada poética, o documento sequer menciona livros, poemas ou as 18 peças que ainda não tinham sido publicadas na época de sua morte. Seu funeral tampouco foi registrado com grandes demonstrações públicas de emoção, e a primeira homenagem escrita só veio justamente na capa do Primeiro Folio.

“É essa falta de conexões do homem com a obra que tem de ser abordada. Todos os autores importantes contemporâneos de Shakespeare deixaram o que se pode chamar de trilha de papel. Cristopher Marlowe é um exemplo, embora sua produção tenha sido bem menor que a do bardo. Também incomoda que um homem tão letrado como Shakespeare não tenha escrito um grande volume de cartas, ainda mais quando foi morar em Londres e deixou a família em Stratford”, diz Bill Leahy. No entanto, o próprio Leahy concorda com uma questão crucial. Diferentemente dos tempos modernos, o papel no século 16 não era um produto barato, apesar de a invenção da imprensa por Gutemberg ter derrubado em mais de 300 vezes os custos de produção de um livro. Documentos e afins eram “reciclados”, o que também ajuda a explicar, por exemplo, a ausência de materiais como o histórico escolar de Shakespeare.

Isso porque para alguns acadêmicos também há um conflito de classes na discussão. Paul Edmondson, um dos diretores do Birthplace Trust e que coeditou Shakespeare Sem Sombra de Dúvida, critica o que vê como preconceito na causa oxfordiana. “O que mais me incomoda em tudo isso é termos que combater o argumento de que alguém da classe trabalhadora não poderia ter produzido literatura de alto nível. Isso não é apenas historicamente incorreto, mas preconceituso”, diz Edmondson.

 

Uma das experts recrutadas para o livro foi Carol Chillington, pesquisadora da Universidade de Warwick especializada na história do sistema educacional do Reino Unido. É dela que vem uma preciosa análise do currículo das escolas secundárias do Período Elizabetano. De acordo com seus estudos, alunos desses estabelecimentos não só tinham uma grade de disciplinas que incluía o latim, mas também uma lista de leitura de obras clássicas que hoje equivaleria a de uma ementa universitária.
Outro trunfo dos stratfordianos é uma análise feita pelo linguista David Kathman, especialista em dialetos arcaicos do inglês. Seu veredito é que os textos estão repletos de regionalismos relacionados a Warwickshire, onde fica Stratford-Upon-Avon. “Também temos análises de padrão métrico dos versos escritos por De Vere e por Shakespeare que revelam a impossibilidade de uma mesma pessoa ter escrito ambos”, afirma Edmondson.
A polêmica ajudou a revelar detalhes interessantes não apenas sobre William Shakespeare, mas também sobre seus métodos de trabalho. Há um ano, duas acadêmicas da Universidade de Oxford, Laurie Maguire e Emma Smith, publicaram um estudo em que provaram que Shakespeare não escreveu sozinho a peça Tudo Está Bem Quando Termina Bem – a dupla até nomeou o escritor e dramaturgo Thomas Middleton como coautor. Smith garante que não foi um “a-rá” para os céticos, mas uma mostra de como entender a questão da autoria.

“O estudo ajuda a mostrar um quadro em que autores escreviam de modo muito mais colaborativo no Período Elizabetano do que se pode imaginar hoje. Trabalhavam de uma forma bem diferente do que imaginamos e romantizamos”, afirma Smith. Mais do que celebridades, escritores do século 16 tinham um perfil mais operário, em que a quantidade ditava o ritmo. Companhias teatrais recorriam a diversos autores para chegar ao texto final de peças. E eles não tinham pudor em pegar emprestado trabalhos alheios. “A noção atual de plágio não se aplica a eras passadas. A apropriação era muito mais tolerada.”

Os dois clãs concordam em um ponto: o debate não tem data para acabar. “A não ser que alguém encontre algum documento perdido, não se poderá dizer ao certo, mas nem por isso podemos deixar de questionar pontos duvidosos da versão oficial dos fatos, mesmo que firam interesses financeiros”, afirma Bill Leahy. Graças a Shakespeare, Stratford-Upon-Avon recebe 5 milhões de visitantes por ano. Emma Smith, que não participou do projeto stratfordiano comandado por Edmondson, acredita que o questionamento tende muito mais à excentricidade do que a ameaça vista pelo Shakespeare Trust. “A reação exacerbada só serviu de munição para quem fomenta teorias conspiratórias. O meio acadêmico deveria aceitar que uma figura tão poderosa quanto William Shakespeare não teria como deixar de ser alvo de ideias de fantasia.”

 

Quem são os candidatos ao posto de maior poeta e dramaturgo inglês
Cristopher Marlowe

Dramaturgo contemporâneo de Shakespeare e um dos grandes nomes do período elizabetano. Embora não haja evidência de que trabalharam juntos, sabe-se que ambos escreviam para as mesmas companhias teatrais. Há semelhanças de estilo, mas que podem ser explicadas por Shakespeare tentar adotar uma fórmula de sucesso. O fato de Marlowe ter morrido em 1593, antes do auge shakespeariano, é um problema.

Edward de Vere

O 17o Barão de Oxford é um candidato tão ideal que sua suposta autoria do trabalho de Shakespeare virou até filme. Aristocrata, viajado e entusiasta das artes, teria escrito uma série de peças com pseudônimos. Mas muitos dos argumentos a seu favor ainda passam por pistas dignas de romances de Dan Brown, como o fato de o brasão da família ter um leão segurando uma lança, algo que evoca shake a spear (balançar uma lança). Análises métricas de poemas de Oxford com os de Shakespeare, porém, não revelaram nenhuma afinidade.

Francis Bacon

O filósofo, cientista e estadista foi um popular candidato a “real” Shakespeare no século 19, mas acadêmicos apontam para o fato de que sua vida convencional já era atribulada e produtiva em demasia para que ainda conseguisse escrever dezenas de peças.

Will Stanley
O sexto Barão de Derby financiou companhias teatrais e era tão viajado como De Vere. Além disso, era amigo dos barões de Montgomery e Pembroke, que estão na dedicatória do Primeiro Folio. Stanley, porém, viveu até 1642, e o Folio, lançado décadas antes, é claramente apresentado como um documento póstumo.

– fonte: foda-se a fonte!