Arquivo da categoria: Dica de Cinema

Lixo music na telona e boa música na lona

Para o meu espanto hoje recebi a notícia horripilante que irão fazer um filme sobre a banda de forró Calypso . A protagonista será Deborah Secco (a mesma que fez a puta Bruna Surfistina).

Diante disso, não sei se eu vomito ou se fico indignado mais ainda com o péssimo nível da cultura nacional recheada de referências culturais que nada possuem de cultural.

Antigamente – e bota antigamente nisso – a música popular brasileira tinha letra e poesia.  Não era um hinário de depravação como é atualmente.  Aliás, quando não é letra de depravação é letra de louvor desses cantores gospel e católicos que querem um espaço no mercado fonográfico da auto-ajuda.

Do funk ao forró passando pelo sertanejo universitário, fica evidente que as letras sobre balada, bunda, traição, cerveja e sedução de sirigaitas são a temática preferida desses compositores mobrais.

Se algum desses gênios da lixo-music quiser fazer uma música com alguma mensagem política eu creio piamente que será em favor do Mensalão tamanha é alienação de tais letristas. Imaginem um funk da Dilma, ou um Ai se eu te pego Joaquim Barbosa, ou até mesmo arrasta pé do Carlinhos Cachoeira?

Na maioria das vezes culpam as rádios comerciais de jabá e nível educacional e cultural de baixa qualidade para que esse tipo de música nojenta seja tolerado e garanta cada vez mais o seu lugar no mercado.  Mas não é só isso. A divulgação de música de qualidade passa também pela formação de bons músicos em conservatórios e meios desses profissionais propagarem seus trabalhos musicais sem serem massacrados pelo jabá das rádios e TVs.

Incentivar a produção de música de qualidade é antes de tudo valorizar a profissão do músico e reconhecer que sua contribuição profissional merece um feedback adequado em termos de mercado.

Já tivemos um ministro da cultura que foi músico e que conhece como funciona esse mercado e certamente sabe das dificuldades do músico profissional ser bem alocado no mercado. Gilberto Gil passou batido no Ministério da Cultura e parece nada ter realizado para mudar esse cenário caótico da musicalidade nacional em termos de incentivo a boa música de qualidade.

Agora o que nos resta a fazer é tapar os ouvidos e fechas os olhos, pois a lixo-music está chegando aos cinemas e se alguém algum dia assistiu um filme sobre Villa-Lobos sinta-se satisfeito, porque não tem mais músicos dessa estirpe para serem encenados na telona.

Discurso de Gordon Gekko: A ganância é boa

O discurso de Gordon Gekko, no filme  (1987), é um clássico da filmografia relacionada ao mundo dos investimentos financeiros. Gekko é o maior representante do paradigma do especulador financeiro desalmado, que na linguagem mais popular dos investidores, é chamado de “tubarão” – uma comparação com nós, os pequenos investidores, que somos chamados de “sardinha”.  No imaginário popular, os tubarões ganham muito dinheiro no mercado financeiro por ter acesso a informações privilegiadas (a insider information) e nós, pobres sardinhas, só podemos comer as migalhas. É claro que, apesar dos esforços pela regulação do mercado, existem especuladores que ganham dinheiro com informação privilegiada (os Gekkos da vida real) – mas isso não significa que investidores de longo prazo não têm chance de enriquecer.

O discurso de Gekko é proferido na assembléia anual de acionistas da empresa Teldar Papers, quando o especulador tenta justificar perante os acionistas a aquisição agressiva do controle da empresa. Nele, Gekko imortaliza a frase “A ganância é boa”, que inspirou uma geração de especuladores. Vamos ao discurso, sem deixar de registrar que o filme foi dirigido por Oliver Stone e que os direitos de distribuição são da Fox:

– Gekko: Bem, eu aprecio a oportunidade que você está me dando, Sr. Cromwell [o Presidente da Teldar Papers, que se opunha à aquisição], como o maior acionista da Telda Paper, de falar. Bom, senhoras e senhores, nós não estamos aqui para sermos indulgentes com a fantasia, mas com a realidade política e econômica. A América, a América se tornou uma potência de segunda classe. Seus déficits fiscal e comercial são um pesadelo de proporções gigantescas.

Mas nos dias de livre mercado, quando nosso país era a principal potência industrial, havia prestação de contas para o acionista. Os Carnegies, os Mellons, os homens que construíram este grande império industrial, garantiram isso porque era o dinheiro deles que estava em jogo. Hoje, a administração não é proprietária da companhia! Todos estes homens que estão sentados aí em cima [a administração da Teldar] têm menos de 3% da empresa. E onde o Sr. Cromwell investe seu salário de um milhão de dólares? Não nas  da Teldar: ele possui menos de 1% delas.

Vocês possuem a empresa. É verdade — vocês, os acionistas. E vocês estão sendo enganados por eles, esses burocratas, que almoçam filé, viajam para caçar e pescar, têm jatos corporativos e paraquedas dourados.

– Intervenção de Cromwel: Isso é um ultraje! Sr. Gekko, você saiu de linha!

– Gekko: A Teldar Paper, Sr. Cromwell, a Teldar Paper tem 33 vice-presidentes diferentes, cada um ganhando mais de 200.000 dólares por ano. Agora, eu passei os últimos 2 meses analisando o que esses caras fazem, e até agora não descobri. Uma coisa que eu sei é que nossa empresa de papel perdeu 110 milhões de dólares no ano passado, e eu aposto que metade disso foi gasto com a papelada que vai e volta entre todos esses vice-presidentes.

A nova lei da evolução da América corporativa parece ser a sobrevivência do mais fraco. Bem, no meu livro ou você faz certo ou você é eliminado. Nas últimas 7 transações em que estive envolvido, havia 2.5 milhões de acionistas que tiveram um lucro antes dos impostos de 12 bilhões de dólares. [Palmas] Obrigado. Eu não sou um destruidor de empresas. Eu sou um libertador delas!

A questão é, senhoras e senhores, que a ganância — na falta de uma palavra melhor — é boa. Ter ganância é certo. Ter ganância funciona. A ganância esclarece, separa e captura a essência do espírito evolucionário. A ganância, em todas as suas formas — ganância pela vida, pelo dinheiro, pelo amor, pelo conhecimento — marcou a evolução da humanidade. E a ganância — lembrem-se de minhas palavras — irá salvar não apenas a Teldar Paper, mas aquela outra empresa chamada Estados Unidos da América. Obrigado.”

Contundente, não? Apesar de ter uma filosofia de investimento diferente da adotada por  Gekko (até porque não tenho insider information, nem pretendo ter), concordo com boa parte do que ele diz. Uma empresa deve prestar contas a seus acionistas e deve ser lucrativa. Uma empresa não pode ter uma administração burocrática demais. Ela serve para dar lucros. Ela tem que ser agressiva para dar lucros para seus verdadeiros donos, os acionistas. A ganância, nesse sentido, é boa. Não à ganância corrupta, sim à ganância produtiva. Gekko, sendo um especulador inescrupuloso, talvez não defendesse algo como uma distinção entre ganância corrupta e ganância produtiva, mas também podemos extrair essa leitura de seu discurso.

Wall Street  retratou o espírito de uma época que culminou na  de 1987. Essa semana estreou no Brasil a sequência do filme, Wall Street 2: o dinheiro nunca dorme — e que provavelmente será lembrado como o retrato de uma época que também culminou numa , da qual ainda não saímos por inteiro. Pra finalizar, deixo uma palhinha do novo filme. Uma frase de Gekko que já destaco é: “Alguém me lembrou que eu já disse: a ganância é boa. Agora, ela foi legalizada”.

Remake de Silêncio dos Inocentes made in China

Indubitavelmente a nova aventura hollywoodiana é fazer um remake desastroso de Silêncio dos Inocentes estando o autor da nova intriga não só na condição de roteirista, mas também no papel do Dr. Frederick Chilton.  Sim o papel caiu como uma luva ao roteirista. Tanto pelo atrevimento de se considerar uma figura importante na trama, quanto ao atrevimento do uso deletério do poder da imaginação de achar que  Hanibal Lecter e Clarice Starling teriam sido bons amigos algum dia.

Entretanto, o maior apelo desse script é fazer Bufallo Bill falar, ou melhor, dessa vez a trama terá não terá um búfalo, mas sim um parente próximo da mesma espécie bovídea fazendo o mesmo papel semelhante ao do psicótico da primeira trama. Creio que o papel caiu como uma luva mais uma vez. Dessa vez ponto para o roteirista por adaptar bem o personagem a situação real.

Espero que depois disso a crítica mais adepta da farsa surrealista do que de remakes do passado não fiquem incomodados e passem a proceder novamente manifestações conjuntas do próprio opróbrio público tecendo comentários consubstancialmente inverossímeis acerca de Hanibal Lecter. Isso seria mais uma prova cabal de que o novo Buffalo Bill tem seguidores do mesmo naipe.

Devo acrescentar que existe sempre aquele na trama que de nada sabe, que sempre fica a mercê dos fatos fazendo  sempre jogo de cena como vítima por saber tudo que se passa, mas nesse remake a coisa mudou, ele ganhou o papel que seria dado a quem saiu de cena por sete ou oito vezes por encenar com brilhantismo a tragicomédia.

Por isso que fazer falar o novo Bufallo Bill é uma tacada interessante do roteirista ao qual indagaria se ele pudesse responder: O que levou o personagem a se calar e depois abrir o bico nessa trama? Teria sido a agente Starling promovida a uma posição de comando e agora resolveu caçar Lecter quer onde ele esteja através do mesmo modelo de psicótico da primeira trama que ressurge nessa com todos os traços e semelhanças do primeiro script?

Cabe ao roteirista responder isso. Caso ele responda eu garanto que farei um novo “Quid pro quo” aqui nesse blog enquanto o roteirista hollywoodiano faz em outro.

Dica de Cinema