O novo anti-herói da República

Existem claras diferenças  e semelhanças entre Roberto Jefferson e Eduardo Cunha.

A maior delas, talvez, seja o estilo e o impacto que causam cada vez que abrem a boca para falar do PT. Enquanto Roberto Jefferson era um showman – dono duma verve impagável, ele transformou seus depoimentos sobre o mensalão, em 2005, em espetáculos eletrizantes. Já Eduardo  Cunha é, em termos de de jogo de cena um usuário da retórica da crítica ácida e direta sem meias palavras em muitos casos, mas isso não nega sua astúcia por de trás daqueles óculos fundo de garrafa.

Ambos se parecem muito naquilo que nos interessa: são personagens da base governista que, ao se verem envolvidos em denúncias de corrupção, romperam com governos petistas e passaram a enfrentá-lo abertamente e pagando altos preços por esse movimento arriscado. a tendência natural é que caiam uma hora ou outra em contradição ou falhem em algum movimento estratégico mal pensando ao mover alguma peça no tabuleiro complexo de bastidores políticos e sejam traídos por suas vaidades e falhas.

O que, hoje, apresenta-se apenas como promessa em Eduardo Cunha, foi o que, entre 2005 e 2006 transformou Roberto Jefferson numa espécie de anti-vilão. Sem suas denúncias, não existiria o processo do Mensalão e nem mesmo prisão de figuras da alta cúpula do PT que comandavam todo esquema.

Num determinado momento Jefferson, motoqueiro e cantor, com retórica afiada de advogado criminalista ganhou aparência de herói e simpatizantes com sua fala eivada de finas ironias e cinismo bem dosado. A opinião pública se renderam à forma corajosa com a qual ele entregou, um a um, os agentes do maior esquema de corrupção do qual se tinha notícia até aquele momento.E o fato de que fizesse isso colocando o dedo na cara de figuras, até então poderosíssimas, como José Dirceu contribuiu muito para isso na formação dessa lenda política da corrupção brasileira.

Já Eduardo Cunha, por outras características peculiares e pessoais parece estar contando com uma vantagem sobre Roberto Jefferson para ganhar as simpatias de boa parte da opinião pública: O presidente da Câmara dos Deputados, desde que foi citado na mídia mais recorrentemente, sempre apareceu destacado como alguém pelo o qual o PT nutria desprezo e ódio.  Nas investigações da Lava Jato sobre o Petrolão ele passou a fazer uso do cargo e corporativismo para jogar para outros lados da Praça dos 3 Poderes as crises e bombas de suas declarações sob a tática de dizer que o Poder Legislativo tinha se tornado novamente independente com sua chegada à presidência da casa.  Por ser evangélico e pautar especialmente assuntos da ala mais conservadora da sociedade logo ficou conhecido como baluarte das causas anti-esquerda sem se deixar macular ou contaminar pela imagem histriônica de bolsonaristas e felicianistas. Embora sem a desenvoltura de um showman digna de Roberto Jefferson, Cunha tem utilizado o monitoramento das redes sociais com habilidade e muita propriedade. Foi assim com a recente manobra que resultou na aprovação da queda da maioridade penal na Câmara fazendo o projeto voltar a votação um dia após ter sido derrotado em votação. Fez uso do regimento interno da Câmara, irritou a esquerda, e prestigiou a vontade dos ditos 93% da população que desaprovam as posições do governo do PT e . Tem sido assim quando contra outros órgãos e segmento fazendo declarações contra a OAB ou ao STF por dizer são órgãos que interferem onde não deveriam e agem com base em interesses contrários à população.

Roberto Jefferson foi capaz de proporcionar de cenas e episódios onde aparecia na CPI dos Correios com olho roxo e capaz de fazer piadas e soltar frases de efeito que faziam seus adversários explodirem de raiva, já Cunha como evangélico passa a imagem de sujeito família, mais sereno, mas não menos audaz com sua língua afiada quando diz que o governo faz tudo errado e não pensa em nada além de si mesmo.


Eduardo Cunha ao chamar coletiva de imprensa para avisar de seu rompimento com o governo e desengavetar pedidos de impeachment e declara que sabe de coisas que podem explodir o governo do PT. Assim como Roberto Jefferson faz anúncios estrondosos sob olhares atentos de jornalistas e seus bloquinhos que anotam cada palavra dita em tom solene e fulminante. Se tais arroubos de Eduardo Cunha não passam de ameaças ou se ele, de fato, pretende contar o que sabe as próximas semanas irão revelar.  No entanto, ainda está faltando o principal para garantir a Eduardo Cunha aquele momento decisivo de anti-herói vivido dez anos atrás por Roberto Jefferson: A coragem para entregar seus seus ex companheiros sem poupá-los. Sem esta coragem – que vem mais das entranhas do medo do que da razão – é impossível a um simples corrupto se transformar no herói às avessas nessa trama onde não existem mocinhos, mas sim apenas vilões dos mais variados tipos e estilos.

Se Eduardo Cunha irá permanecer ou não na presidência da Câmara ou seja qual for seu destino o estrago tá feito, quem tentar impedir ou engavetar e votar contra o processo impeachment que ele deu andamento logo  após “romper com o governo” vai trair a nação e se lascar na mão do povo e mergulhar o Brasil na agenda do caos total em todos sentidos.

Cunha

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 18 de julho de 2015, em Política e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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