Esse tal de Hayek

Na visão de Keynes, exposta em sua “Teoria Geral”, o ciclo de baixa na Economia teria origem na deterioração das expectativas, ou seja, na quebra da confiança de empresários e consumidores. Com isso, haveria uma queda da demanda agregada (consumo mais investimento) que geraria recessão e desemprego. Como, em sua visão, a política monetária enfrentaria uma “armadilha da liquidez”, popularizada pela idéia de que se pode levar um cavalo ao bebedouro, mas não obrigá-lo a beber, Keynes preconizava então a expansão dos gastos públicos como remédio anti depressivo. Notem que Keynes não deixou clara a causa das crises de confiança.

Enquanto que para Keynes o Estado representava a solução, para Hayek o Estado era o problema. Segundo Hayek, na raiz das recessões ou depressões estava sempre uma política monetária frouxa. Juros artificialmente mantidos abaixo das taxas naturais de equilíbrio favoreceriam malinvestments em setores com ciclos longos de produção. Somente mais e mais artificialismo monetário poderia dar sustentação a estes malinvestments. A liberalidade monetária só poderia levar à inflação e, quando cessasse, resultaria em recessão, pois não haveria demanda para sustentar os investimentos mal feitos. Diante da recessão, os remédios keynesianos só poderiam mascarar problemas e jogá-los para a frente, prenunciando crises ainda maiores. O melhor seria deixar o Estado de fora da crise que ele mesmo causara!

Essas idéias nos rementem para Hayek, e muitos podem estranhar que  Hayek até esteja entre os expoentes de Chicago sendo que ele era essencialmente um “austríaco”. É verdade que a ida de Hayek para Chicago não ocorreu sem alguns percalços. Desde 1945, quando Hayek fazia seu road show nos EUA (com base em Chicago) para divulgar “O Caminho da Servidão”, surgiu um namoro conturbado com a Escola. Este namoro só iria terminar em 1950 com um convite, aceito, para lecionar na Divisão de Ciências Sociais. A admiração de todo o Departamento de Economia era enorme para com o pensador liberal, mas o mesmo não ocorria com a figura de Hayek como teórico da Ciência Econômica.

Os economistas de Chicago não concordavam com a descrição do fenômeno econômico contida na Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos nem com a teoria monetária de Hayek. Havia discordâncias também de natureza metodológica, área onde o empirismo de Friedman passava a ser dominante, não só na Escola como por toda a profissão. Hayek tinha sobre a metodologia uma posição particular. Era contra o cientificismo, que comparava a Economia às ciências físicas e que tentava encontrar constantes no relacionamento entre as variáveis econômicas. Mas aceitava bem o uso da matemática para sistematizar o conhecimento e para estabelecer a natureza geral de padrões de comportamento. Entendiam também os economistas de Chicago que Hayek não concentrava seus esforços intelectuais no desenvolvimento da Teoria Econômica. Diferentemente de seu mestre de Viena, Von Mises, e de mestres do calibre de Friedman e Gary Becker, Hayek nunca tratou a Ciência Econômica como sendo indiscutivelmente a “Rainha das Ciências Sociais”.

A solução encontrada, então, foi contratar Hayek para a Divisão de Ciências Sociais (Committee on Social Thought), à qual o Departamento de Economia estava e está subordinado. Hayek estaria liberto para produzir em outras áreas do conhecimento e ganhariam também com suas luzes os departamentos de Ciências Políticas, Direito, Sociologia, Psicologia e História.

O combate ao Socialismo foi assim uma constante nos afazeres e na produção intelectual de Hayek. Seus trabalhos sobre a transmissão do conhecimento através do sistema de preços livres e sobre a ordem espontânea do Capitalismo complementaram o mais eloqüente e panfletário “O Caminho da Servidão”, para mostrar que, em havendo um regime econômico centralmente planificado, seria inevitável o percurso para o totalitarismo e garantido o insucesso material do país. Na linha de combate ao intervencionismo estatal, cabe notar também a proposta feita por Hayek de completa privatização da moeda, passando esta a ser resultante da livre competição entre bancos privados emissores.

Em 1962, Hayek deixou Chicago. Estava aborrecido por não ser reconhecido por seu pares como um grande economista e deprimido porque o que julgava ser sua obra maior, “The Constitution of Liberty” (Os Fundamentos da Liberdade), não obtivera o sucesso editorial esperado. Convidado então pela Universidade de Freiburg para assumir uma cátedra, aceitou de bom grado o retorno à Europa onde dedicou o final de sua carreira principalmente à produção acadêmica na área do Direito (“Law, Legislation and Liberty”). Viveu o suficiente, no entanto, para ver que na década de 70, em Chicago, foi reabilitado como grande economista por Robert Lucas, em virtude de seu enfoque de equilíbrio geral no trato da macroeconomia e por ter reconhecido teoricamente a incapacidade do governo em lidar com o ciclo econômico. O prêmio Nobel de Economia, recebido em 1974, também viria fazer justiça ao grande intelectual cuja obra influenciou os rumos do século XX.

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Sobre Aloprado Alonso

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Publicado em 15 de junho de 2015, em Economia e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. essa tal liberdade tão pregada pelo liberalismo serve apenas para não libertar. Acreditar que o liberalismo economico pdoe salvar os seres humanos é ignorar a História e as relações de poder previamente estabelecidas. Será que Hayek pensava nas pessoas pobres que não tem acesso aos meios de produção? Será que Hayek pensava na igualdade social entre os seres humanos? Ou será que ele busca a tal “liberdade” só para alguns?

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