Coar água com a peneira

Dentre as várias abordagens possíveis na Psicologia, com concepções de homem e mundo diferentes, duas delas, talvez as mais comuns no Brasil, são o Behaviorismo Radical do americano Skinner (1904-1990), e a Psicanálise iniciada por Freud (1856-1939). O behaviorismo sempre me pareceu a mais fácil, a mais ajustada aos moldes da sociedade e que cai como uma luva ao que as pessoas querem: diagnósticos e soluções rápidas. Sem, contudo, deixar de ter seus pontos que me agradam.

Suponho que Skinner se contorcia de prazer em pensar uma sociedade onde os governantes teriam como braços direito um psicólogo responsável para pensar em práticas culturais. Os psicólogos seriam capazes de gerir contingências que possibilitassem o “bem” da cultura; Skinner falava em sobrevivência da cultura. – Sim, é algo bem ao estilo dos americanos.

Entre os vários assuntos abordados, um deles, objetivo de estudo em grande número de pesquisas nessa área, é a tal das habilidades sociais. Contendo-me nas palavras, é uma forma de você adaptar o sujeito à sociedade. É uma técnica muito eficaz, digamos, pelo menos para o sujeito comum que não se aventurou muito nos terrenos explosivos da filosofia. Na minha percepção, conversar com alguém que passou por treino de habilidades sociais é sentir-se diante de um ventríloquo, um boneco artificial que parece estar fazendo “lição de casa” na relação interpessoal: “estou feliz por você” – isso é uma piada de mau gosto!

Uma das formas usada até pelo próprio Skinner, na qual é manjada entre as disputas psicanalíticas e behavioristas – as piadas que fazem entre eles – é aquela que ironiza os conceitos de ego, superego e id que Freud usa como elementos reguladores dos comportamentos; segundo os “humoristas” não há nenhum ente ou homúnculo dentro da cabeça controlando o comportamento. Ora, pois, é óbvio que não há. Os três elementos não passam de conceitos criados para criar um possível “sistema” teórico-conceitual, ainda mais para Freud onde o “real” jamais pode ser atingível!

Parece-me que criticar ciência por ciência é como tentar coar água com uma peneira. No entanto, ninguém ousará dizer que não é assim que as ciências caminham. Não vá o leitor pensar que sou “isso” ou “aquilo” somente. As palavras acima não são mais que opiniões; não pretendem expressar nenhuma defesa da psicanálise contra o behaviorismo, se é o que pareceu. Aliás, perspectiva essa última que tão útil pode ser com a forma tal como explica o comportamento como sendo algo sempre controlado pelas contingências presentes no ambiente e requer-se pensar em 3 níveis de seleção, biológico, social e cultural – grosso modo, para o leitor que não conhece, seria dizer que toda explicação comportamental não está em outro lugar senão no ambiente.

Qualquer comportamento pode ser explicado entre as várias abordagens de formas diferentes, por vezes, o que é nocivo em uma é benéfico para outra. Resultados também são produzidos em ambas. Alguns dirão que determinadas abordagens produzem maiores resultados para determinado tipo de problema e não outra: falácia! Não me seria nada agradável ir a um psicoterapeuta e ser tratado em termos de contingências e reforçadores, por outro lado sentir-me-ia bem entre os existenciais; já outras pessoas poderiam preferir o que lhe é “pragmático”, poderiam ainda se sentir pouco a vontade em nenhuma dessas perspectivas.

Ver vários pontos as quais não concordamos nas teorias, bem o que concordamos, inclusive com aquela que mais nos identificamos, é compreensível e faz bem até para a disposição de espírito. Por mais que nos é legítimo dizer que sou “isso” ou “aquilo”, é necessário reconhecer que não há nenhum pressuposto último que nos faz melhores conhecedores da “realidade” do que os outros. Seja quais forem as peças utilizadas para pensar, estamos lidando com ficções que podem ou não potencializar nossas vidas.

Daí me surge uma questão. Não seria melhor se um psicólogo não se relacionasse com as mais diversas abordagens oferecidas dentro de suas áreas e trabalhar com a que parece melhor potencializar a superação dos problemas por parte do cliente? Também, inclusive, permutando dois ou mais pontos de vista? – Claro que decorreria daí uma série de questões a se pensar: como saber a abordagem que mais cabe ao cliente? como usar de pensamentos antagônicos? como não se perder num setting terapêutico adotando vários pontos de vista?

Muitas dessas questões decorrem da nossa própria cultura, bem como dos pressupostos que formam as teorias, muitos dos quais criados dentro da lógica formal. Ignorando que as coisas possam coexistir ao mesmo tempo, que os antagonismos estão presentes e se completam, ou ainda, podem ser complementares e conflituosos concomitantemente.

Certamente que ninguém poderia conhecer a fundo tantas e tantas coisas, mas aceitar as diversas perspectivas juntas e de alguma forma oferecer aquilo que talvez melhor se dispusesse ao bem-estar do cliente implicaria em uma relação diferente. Aliás, a compreensão de uma dada abordagem tanto mais clara pode ficar conhecendo outras, bem como as críticas mais comuns a que lhe são dirigidas; uma é essencial para a outra.

Enfim, tais preâmbulos são rascunhos de alguns pensamentos que me assustam quanto às “especializações” cada vez mais intensas nas mais diversas áreas das ciências e não só da Psicologia, germinados desde meus primeiros passos no meio acadêmico, onde tive oportunidade de conhecer vários professores “xiitas” que muito me desagradavam, bem como tantos outros que os guardo nas melhores lembranças, mesmo que falassem de abordagens das quais não me interessava muito.

Tal disposição de pensamento não significa que as pessoas não deveriam se aprofundar mais em determinados assuntos, mas que aquele especialista que só sabe pensar em termos binários, tal como um computador, e insiste em olhar o mundo somente por uma determinada lente, e não obstante, toma isso como verdade, parece-me ser um profissional de alta periculosidade inserido nas várias dimensões da vida social. Basta dar uma rápida passada entre os resultados sangrentos que as religiões monoteístas demonstram para constatar o que um ciclope do conhecimento pode realizar.

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 15 de junho de 2015, em Comportamento e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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