O legado político de Jesus Cristo

Antigamente, no século XIX, um liberal era considerado acima de tudo um livre pensador. Um liberal basicamente naquela “belle époque” das ideologias políticas do Novo Mundo defendiam o Estado laico, ou seja, postulavam a exclusão total do domínio eclesial da Igreja do poder civil e concediam o que é próprio da polis aos seus integrantes;  com isso configurava-se as linhas gerais do chamado Estado Democrático.

Emancipar a sociedade do obscurantismo religioso sempre foi uma intenção de vários reformadores sociais. Prova disso é vetar até mesmo religiões e liberdade de culto de serem exercidas como direito em muitos países até nos dias áureos da liberdade do século XXI. Todavia, substituem esta forma de obscurantismo religioso pelo relativismo moral e ideológico, filosófico e metajurídico. Muitos governos e movimentos políticos subsidiaram as disciplinas das ciências que afrontam e combatem o pensamento religioso ainda presente na sociedade de diversas formas. Exemplar disso é o existencialismo propagado  através dos meios universitários do mundo inteiro. A França provou dessa fonte e hoje é um dos países mais descristianizados da Europa. Os franceses produtos desta geração de pensamento são fruto da luta contra valores e bases do pensamento cristão tradicional e conservadorismo e até mesmo do liberalismo. O passado ideológico e presente francês é recorrente nesse ideal, pois a parti pris de que religião é o ópio do povo contra a sua própria liberdade hoje é um dogma ferrenho que tornou o pensamento cristão relegado a uma quase heresia social.

Aqui e agora, as constantes divergências dos liberais de toda sorte em face dos esquerdistas rancorosos com uma série de fatos trazidos ao presente pelo revisionismo histórico, ou ainda, da briga de foices e facas com vendas entre os mesmos dos conservadores mais tacanhos, como os conservadores cristãos. Basicamente essa relação sempre foi corrosiva e apontam e tornam mais evidentes que nos regimes autoritários, os quais geraram suas castas no decorrer da história, ou guerras civis e revoluções onde os cristãos conservadores ora são perseguidos de todas as formas ora são os carrascos se tornou uma gangorra. Exemplo disso é a URSS na era Stalin com seus expurgos e as ditaduras Latino Americanas de diversas matizes e origens ideológicas; em especial a mexicana e cubana em face da brasileira e chilena num comparativo direto. Perante essa radicalização histórica de todas as formas de pensamento político, o liberal desde outrora é o que hoje chamaríamos um progressista, ou seja, defensor dos direitos humanos – conhecidos desde a Revolução Francesa como Direitos do Homem – e da Democracia. São estes nobres senhores e senhoras que também cultivaram duma forma ou outra um ideal contrário ao cristianismo e outras culturas religiosas das mais variadas em muitos países por onde semearam suas idéias. Isso decorre da concepção de que a vida social ou política não deve ser preordenada por formas de pensamento transcendentes e um tanto abstratas em demasia segundo os mesmos. Eis aí a herança do racionalismo que rompeu com diversas coisas desde o teocentrismo até o transcendente ao final do Renascentismo.  A questão que fica mais atinente ao caso: Tudo isto foi criado em troca do que realmente? Uma das respostas menos dadas é que todas as ideologias insurgentes do século XIX ou até antes criam esse senso reformista social para angariar o poder que outrora foi amplamente comensurado nas mãos da poderosa Igreja Católica Apostólica Romana e de sistemas governamentais tidos como absolutistas.

A Igreja que conhecemos mais abertamente remonta não a história de seus místicos e santos ou mártires, mas sim a Igreja feudal de Papas devassos e corruptos, às suas ordens religiosas beligerantes ou inquisitiva. Conhecemos hoje muito mais a Igreja proprietária de terras e propagadora de cultura, de costumes públicos administrativos e valores humanos avaliados hoje em dia como retrógrados e obscurantistas do que a sua formatação espiritual, a qual é mais ainda rechaçada pelo homem liberto dessa praga medieval da espiritualidade cristã. Pode ser que a Igreja represente algo ultrapassado e fronteiriço na história da humanidade, mas as ideologias e costumes gerados pelas novas fórmulas de pensamento também geraram guerras, fome e não baniram a pestilência corruptiva da face do planeta e de saus instituições. Sem dúvida as multiplicaram muito mais do que a combalida Igreja que coroava reis e imperadores no passado distante.  Então nos parece que as repúblicas democráticas ditas modernas empataram o senso de contradições e mistificações da falta de zelo com a humanidade; ou será necessário mais 1800 anos de história para nos convencermos do contrário?

Não vamos esquecer de que os considerados o pais do conservadorismo, um deles, Edmund Burke era um Whig antes da Revolução Francesa e não um Tory. Ou seja, era um liberal. Burke analisou tudo o que a Revolução Francesa representava e antecipou a virulência dos jacobinos, repudiando a tentativa arrogante de mudar tudo da noite para o dia e solapar o Antigo Regime – que ele antes combatia e ainda achava que deveria ser bastante reformado – e criar algo totalmente novo com base na razão sistemática a qual defendia. Arrogância fatal, como diria Hayek. Portanto, os liberais, ao menos os clássicos, não costumam flertar com revoluções e demonizações em face de tudo e todos, não recorrem as mudanças abruptas que permitirão um novo mundo e uma sociedade menos desigual; em parte, isso, fica mais a encargo do socialismo do que do conservadorismo ou liberalismo clássico.

O surgimento do marxismo e a difusão das concepções socialistas tornaram ainda o liberalismo uma figura quase nati-morta ou morimbunda, pois o pensamento liberal perdeu fôlego em alguns grandes centros. Assim como o cristianismo perdeu oxigênio em diversos lugares ante o protestantismo no decorrer da história e teve que ousar uma contra-reforma que gerou apenas mais acirramento de posturas e posições dogmáticas. A vanguarda do pensamento liberal conheceu seu opositor mais vivaz logo que foi praticamente criada e não soube se opor ao mesmo de forma fecunda e pragmática. Do ponto de vista histórico e coletivo, não tiveram nem tempo de sobra para disseminar ou impor seus valores de forma isolada e massificada ou introduzir em todo mundo civilizado um pensamento que combatia o Estado ligado ao ente religioso. Logo vieram as idéias socialistas que se opuseram a todo credo seja cristão ou liberal e com isso começamos uma nova fase da era social e econômica que hoje desemboca no que há de mais típico e trivial em debate político e econômico; a saber, discutir as idéias do Socialismo vs Liberalismo.

Atualmente ante esse dualismo dialético que monopoliza boa parte dos debates políticos em sua raiz conceitual econômica e social; decorre disso uma degeneração da doutrina liberal e socialista. Essa degeneração é fruto das falácias de bem estar social e justiça social e sustentabilidade ora empregadas por essas correntes de forma muitas vezes inverossímil e teimosa. Essa grande mentira ou conversa fiada divulgada por essas duas vertentes decorre do corporativismo adotado ao longo do tempo para sustentar ambas as posições como grandes estandartes da verdade política. Ambas só visam tornar inocentes donas de casa e adolescentes desfocados de coisas mais nobres em liberais ou socialistas convencidos de que a política e transformação da sociedade sempre irá depender de tomarem parte de um lado; seja qual for e militar com valentia e devoção à causa. Isso é uma doutrina essencialmente “cristianizante” das pessoas se tomarmos o cristianismo como movimento de reforma do judaísmo legalista dos tempos da sociedade de Jesus de Nazaré. Esse mesmo Jesus corporativista religioso hoje celebrado – com as devidas vênias – nos teria feito melhor favor se não tivesse fundado uma religião e Igreja alguma, mas sim infundido uma concepção de que a verdade liberta politicamente declarando-se culpado por sedição e não pagamentos de tributos ao Império Romano opressor e dominador daquele povo. Uma espécie de desobediência civil contra o Estado detentor de toda sorte de artefatos de dominação a manutenção do status quo teria sido uma boa nova em meio a tempos de trevas que vieram depois de Cristo em toda história política.

Estamos no começo do século XXI, onde tudo gira em torno de política e livre mercado, porém não são essas coisas que nos libertam e tornam nossas vidas mais fáceis. É outra coisa. Ambas as panacéias da política ou religião soam com magia ou sortilégio para a solução de todos os problemas sociais e humanos, mas no fundo são engodos. Estes parvos viventes chegam a compactuar com as formas mais extremas de dogmatismo social; sejam estes conservadores cristãos, socialistas ateus ou liberais que vez ou outra vão numa comunidade protestante onde o capital lhes é atribuído com benção dos céus. Isto é, compactuam apenas e unicamente com aquilo que crêem ser o mais aceitável, se dispõem a fazer concessões no campo político tendo em vista uma população que contribui coagida para o Estado no decorrer da história como seu grande e absoluto protetor e senhor. Isso só serve para desprestigiar uma das idéias mais nobres do ser humano racional quiçá oriundo dos macacos: Liberdade individual e verdade libertadora da subserviência. Ao meu ver, esse mundo social, político e econômico de hoje é anti-natural. É uma forma de colonizar o outro indevida como diria Saramago.

Todo mundo aqui é explorado e explorador, o que nos diferencia é o grau em que isso ocorre na nossa sistematização social, política e econômica. Somos escravos desse sistema arcaico e selvagem. Sistema desumanizante; haja vista usarmos a máscara da desfaçatez social da reação em cadeia e comportamento em manada boa parte de nossas vidas para manter ativa essa exploração predatório do homem sobre outro homem. Solidariedade é artigo de luxo moral, não é uma coisa bem afixada na ética do “homus economicus” ou “homo socialis” do nosso tempo. Política é a exação que legitima todo o discurso econômico e social por assim dizer no final das contas.

O que seria essa tal Democracia então? Arrisquem a definição que quiserem, pois ela poderá servir aos interesses dogmáticos mais mesquinhos seja de corrente for. Incluindo suas funções mais nobres que é substituir a violência pela resolução pacífica de conflitos.  Diria um Vargas Llosa da vida: “Há certas ideias básicas que definem um liberal. Por exemplo, a liberdade, valor supremo, é una e indivisível, e deve atuar em todos os campos para garantir o verdadeiro progresso. A liberdade política, econômica, social cultural, é uma só e todas elas permitem o avanço da justiça, da riqueza, dos direitos humanos, das oportunidades e da coexistência pacífica em uma sociedade. Se a liberdade se eclipsa em apenas um desses campos, ela se encontra armazenada em todos os outros. Os liberais acreditam que o Estado pequeno é mais eficiente do que o que cresce demasiado e, quando isso ocorre, não só a economia se ressente, como também o conjunto das liberdades públicas. Eles acreditam que a função do Estado não é produzir riqueza, e essa função é melhor desempenhada pela sociedade civil, num regime de livre mercado, no qual são proibidos os privilégios e a propriedade privada é respeitada. Indubitavelmente, a segurança, a ordem pública, a legalidade, a educação e a saúde competem ao Estado, mas não de maneira monopólica, e sim em estreita colaboração com a sociedade civil”.

Entretanto, senhoras e senhores, perdoem a franqueza: Nem Cristo deu jeito nesse mundo caótico e no sistema de subserviência dum ser humano ao outro, apenas gerou mais um e nada além disso. Acham mesmo que um bando de políticos sem vergonha que representam uma nação atrasada e conduzida desde sua fundação no cabresto irão mudar alguma coisa? Nem Israel do velho testamento ou novo se livrou desse cabresto político desumano até hoje. Faiz favoire! Vão rezar para salvar suas almas; esse mundo está perdido mesmo…e o Brasil já conhece seu apocalipse.

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 4 de junho de 2015, em Política e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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