O óbvio ululante que ninguém quer ver

Numa palestra, esta sim no College de France, mas não importa o lugar, com Alexandre Havard, mas também nem precisava ser ele, foi nos ensinado a pensar de forma magnânima e humilde em face aos descalabros da nossa sociedade moderna cuja sanha por respostas fáceis e deletérias não faz pessoas, como eu e você, meditarem sobre seus questionamentos de forma lenta, gradual e aprofundada. Em meio a tagarelice e muitos referenciais cômodos ao meu e seu estilo de vida acabamos por aderir a respostas falsas e apressadas no julgamento da realidade. Por que fazemos isso? Quais as conseqüências dessa atitude moral e intelectual? Não quero dar respostas, quero apenas apresentar o panorama no qual estamos imersos sem nos dar conta…

Definitivamente determinadas coisas não convencem. Hoje em dia estamos na era da informação, porém ainda há uma vasta camada de pessoas, especialmente as alinhadas com ideologias que vão desde o ateísmo ao paganismo, do jingoísmo ao chauvinismo, do cristianismo ao marxismo que realmente denotam ser pessoas totalmente ignorantes e preconceituosas quando expressam suas opiniões sobre os mais variados temas.

Esta semana, fui alvo duma mitomaníaca bisbilhoteira da vida alheia dessa espécie supracitada defendendo que a recusa da PUC em criar uma cátedra de cultura francesa se devia ao obscurantismo clerical ou cristão que emana daquela instituição com base num artigo que não cita muitas das coisas que decorrem nos bastidores universitários, tais como briga de ego por cargos de alto gabarito e reconhecimento. A dita cuja, de tão ensoberbecida por filósofos, esses sim obscuros, por preconceitos feministas ao cristianismo e Igreja Católica, disse ter compreendido as sagradas escrituras cristãs via notas de rodapé históricas da bíblia que leu em tenra idade. Notadamente que qualquer pessoa que realmente queira compreender um manuscrito de qualquer tradição religiosa deveria primeiramente recorrer às fontes primárias e tradição daquela vertente antes de incorrer num pseudo-estudo com base em fontes já contrárias e eivadas de deméritos ao que se estuda.

Exemplar disso, é que por muito tempo nas universidades houve uma briga de certos alunos mais conscientes, que se opunham a estudar tão somente a visão marxista das disciplinas que cursavam e solicitavam aos reitores e professores que também dispusessem da visão liberal clássica ao menos, sem emanar sobre as mesmas as críticas marxistas e vice-versa. Dessa peleja sobrevieram alunos que conhecem ambas as veredas e com maior independência ideológica sobre elas. Hoje em dia os mesmos que provaram da riqueza dessa fonte, depois de anos de leituras, não apenas de clássicos da filosofia antiga e contemporânea, mas também da literatura, ciência política e sociologia dentre outras áreas do saber humano. Hoje encontramos essa geração mais habilitada a opinar sobre muitos assuntos com maior embasamento do que estes paraquedistas que não sabem identificar as origens de muitos pensamentos dos seus autores prediletos; os quais citam e seguem cegamente sem questioná-los devido soar fácil e reconfortante ao ego ignaro e preconceituoso dos mesmos.

Por muito tempo tivemos averbado que liberdade intelectual é conhecer a verdade sabida pelos pensadores que defendem a liberdade de pensamento. Isso ressoa como uma base teórica falsa, pois pode ser manipulada como foco em toda idéia holista, que intenta recriar o mundo e costumes do nada, através de teses que seguem uma estrutura e superestrutura devendo, portanto, ser banidas sumariamente devido seu mérito ser insidiosamente fonte de manipulação. O Brasil que hoje vive esses caos entre os ditos reacionários obscurantistas e os iluminados que defendem a liberdade ampla geral e irrestrita sobre tudo, estão presos numa redoma que prega uma igualdade mentirosa que não leva em conta uma desigualdade justa que é inerente ao ser humano.

Questionar-se se são as idéias que geram os fatos ou os fatos geram as idéias é uma premissa primária metafísica para a qual não existe resposta, porém muitos se valem dessa premissa como articulação de convalidação de suas teses mais estapafúrdias e grotescas, seja na exegese ou na hermenêutica de algum assunto. O caso supracitado da incongruente que lê a bíblia a partir de notas de rodapé, sem se atentar para o valor espiritual do texto que lê, e muito menos sem aferir ao mesmo sua valoração transcendental, torna isso numa espécie de imanentismo corriqueiro digno de Bertrand Russel, Nietzsche, Karl Marx, Antônio Gramsci e do nosso Leonardo Boff no seu livro Tempo de Transcendência, que versa mais sobre filosofia imanente do que teologia transcendente e vende bem por isso, pois a idéia da sua magnus opus Carisma e Poder é sobreposta como Nietzsche faz em Crepúsculo dos Ídolos para convalidar o restante de seus escritos.

Distinção entre o fato e idéia, se algum dia fosse possível responder isso, estaríamos fadados à morte a filosofia e, junto dela, a própria humanidade. A razão é óbvia, pois despojar de qualquer mistério o homem seria transformá-lo numa cobaia do laboratório da história, que por sua vez quer produzir um mutante social a bel prazer dos seus teóricos mais proeminentes. Talvez seja este o sonho de todos os cientistas sociais fetichistas que se arvoram a engenheiros da alma humana e da sociedade moderna que um dia, quiçá,poderá ser livre e justa sem depender de normas reguladoras, pois a ética humana independerá de valores externo e prevalecerão os valores do ser em si mesmo como ápice da magnanimidade e humildade humana. Uma prova que isso é temerário é a obra de Alexandre Havard sobre liderança e trabalho, na qual clarifica que para haver liderança é necessário haver virtudes e caráter arraigados no ser humano em suas ações. Do contrário a falsidade e sedição geram manipulação e destruição de diversos projetos e ambientes que eram saudáveis.

Perante este escopo, o mais provável é que a relação entre fatos e idéias seja uma via de mão dupla — ao mesmo tempo em que são capazes de gerar fatos, pois as idéias não caem do céu podem ser influenciadas por fatos. A tese da ideologia pura e natural, sem amparo da mística social é idéia natimorta.  Caso exemplar disso é o da teoria heliocêntrica, segundo a qual, a Terra gira em torno do Sol. O heliocentrismo foi formulado, pela primeira vez, ainda na antiguidade clássica, pelo astrônomo grego Aristarco de Samos (310-230 a.C.). Mas como não tinha amparo em fatos mensuráveis na época, ancorando-se apenas na genialidade matemática de seu autor, ficou hibernando por 18 séculos, até ser retomado pelo padre polonês Nicolau Copérnico (1473-1543).

Outra tese engenhosa de Aristarco de Samos ilustra, com mais propriedade ainda, a impotência das idéias puras. Ao afirmar que a Terra e os demais planetas giravam em torno do Sol, ele não tinha como justificar o fato de as estrelas parecerem imóveis. A cada ano, quando a Terra completasse seu movimento de translação, a posição aparente das estrelas (paralaxe) teria de apresentar variações perceptíveis a olho nu. Para solucionar esse problema, Aristarco de Samos formulou a seguinte hipótese: essa variação, de fato, ocorria, mas não era perceptível devido à imensidão da esfera celeste, que colocava as estrelas muito distantes da Terra. “Sabemos agora que essa variação realmente ocorre, mas é extremamente pequena; para observá-la, há a necessidade de um telescópio e de uma técnica de observação muito refinada, tanto que ela não foi detectada até a década de 1830, ou seja, mais de dois mil anos depois” — escreve Colin Ronan, em sua História Ilustrada da Ciência, da Universidade de Cambridge.

Nessa mesma toada, coube ainda ao astrônomo, matemático e físico alemão Friedrich Wilhelm Bessel (1784-1846) realizar, em 1838, a primeira mensuração precisa da paralaxe estelar, ao medir a paralaxe da estrela 61 Cygni, da Constelação de Cisne, comprovando a tese que se perdera na Antiga Grécia. Se Aristarco estava certo, por que suas idéias não se impuseram vinte séculos antes, quando foram formuladas? Segundo Colin Ronan, porque a teoria do astrônomo grego, apesar de sua engenhosidade matemática, “parecia uma solução muito inverossímil para os problemas do movimento planetário”. Na época, a teoria geocêntrica de Cláudio Ptolomeu (c. 83-161 d.C.) mostrou-se muito mais eficaz. O fato de acreditar que o Sol é que se movia em torno da Terra não o impediu de descrever, com grande precisão, os movimentos dos astros, conseguindo calcular a data de futuros eclipses do Sol e da Lua. O geocentrismo de Ptolomeu podia estar errado, mas era mais crível e mais útil do que o heliocentrismo de Aristarco.

Eis o eterno dilema — Esses episódios da história das ciências mostram que o sociólogo Émile Durkheim (1858-1917) estava certo ao formular a seguinte tese no clássico “As Regras do Método Sociológico”; a saber: “A causa determinante de um fato social deve ser buscada entre os fatos sociais antecedentes e não entre os estados da consciência individual”. Durkheim defendia que os fatos sociais são externos ao indivíduo e exercem sobre ele uma forte coerção — tese violentamente combatida por marxistas e weberianos, irmãos siameses na mistificação sociológica. Mas “fato social” para Durkheim não significa algo necessariamente concreto, como a diferença entre riqueza e pobreza, as disputas entre patrão e empregado, a hierarquia entre pais e filhos. Pode ser também as representações sociais, que ele chamou de “consciência coletiva”. O que significa que as próprias idéias, apesar de nascidas na consciência individual, podem se tornar fatos sociais — desde que ganhem vida própria, fora do indivíduo que as formulou. Mas, para isso, dependem das circunstâncias, como ocorreu com as idéias de Aristarco de Samos. Ou seja, é a simbiose inextrincável entre idéias e fatos, o eu e as circunstâncias, diante da qual o próprio Durkheim se calava, por saber que é impossível determinar onde acaba o indivíduo e onde começa a sociedade dentro de cada um de nós.

Todavia, os mais renomados cientistas sociais contemporâneos acreditam ter superado Durkheim e resolvido o eterno dilema entre origem e fim, natureza e cultura, imanência e transcendência. Sociólogos como Pierre Bourdieu, Edgar Morin e até Anthony Giddens professam uma ciência social holística, que se julga apta a planejar não apenas a macroestrutura exterior ao indivíduo, mas também a microestrutura de cada consciência individual, devassando anseios, retificando condutas, induzindo concepções de mundo. A ideológica “luta de classes” de Marx cedeu lugar à subjetiva “ação social” de Weber, mas a ciência social continua a mesma desde Comte — seu objetivo é reformar o mundo. Com as rebeliões juvenis da década de 60, simbolizadas pelo Maio de 1968 em Paris, os principais intelectuais do século XX se tornaram lacaios da juventude. Pensadores tão díspares quanto o “vitoriano” Bertrand Russell e o hedonista Michel Foucault, passando pelo individualista Jean-Paul Sartre, renderam-se aos jovens — “esse povo que surgiu recentemente”, com a escolarização de massa, para usar a irônica expressão de Alain Finkielkraut, no livro “A Derrota do Pensamento”.

Renascia, assim, uma das mais recorrentes idéias da história do Ocidente — a de que “um outro mundo é possível”. Cunhada para o Fórum Social Mundial de Porto Alegre pelo jornalista e sociólogo Ignacio Ramonet, diretor eleito do “Le Monde Diplomatique” por mais duma década. Essa frase é apenas a nova veste de uma velha idéia — a utopia do Paraíso Perdido. Trata-se de um dos mais recorrentes mitos de origem, o mito de que o mundo foi criado perfeito e se degenerou depois. A Idade de Ouro, na Teogonia de Hesíodo, e o Jardim do Éden, no Gênesis bíblico, são as duas principais vertentes dessa utopia, que também ocorre entre culturas não ocidentais, como entre os índios guaranis e em segmentos do budismo. Na maioria dos casos, acalenta-se o sonho de reconstituir o Paraíso Perdido na terra, o que significaria alcançar mil anos de felicidade terrena, daí os nomes de milenarismo (do latim) ou quialismo (do grego) que são dados a essas utopias.

Desta forma o milenarismo socialista — sobre o qual versa o segundo volume de sua Historia del Paraíso (a edição brasileira está fora de catálogo), o historiador francês Jean Delumeau observa que “a nostalgia do Jardim do Éden deu lugar progressivamente à esperança de um novo Paraíso terreno” e sustenta que “essa esperança se há laicizado para dar corpo à noção de progresso”. Reclamando que nem sempre se reconhece o legado da utopia milenarista na história do Ocidente. A partir disto, Delumeau aponta a efervescência do milenarismo em torno de Oliver Cromwell (1599-1658), o ditador parlamentar que consolidou a moderna Inglaterra, e lembra que os Pais Peregrinos que desembarcaram na América do Norte em 1620 também eram milenaristas e sonhavam em converter aquela parte do Novo Mundo numa Nova Canaã, marcando indelevelmente os Estados Unidos, que surgiriam no século seguinte. A idéia de um progresso inevitável do mundo se consolida em diferentes pensadores, como Francis Bacon, Adam Smith, Leibniz, Hume, Kant e perpassa até a obra do pessimista Pascal.

Todavia  é por meio da utopia socialista que o milenarismo ganha nova força. Enquanto a idéia de progresso dos filósofos citados limitava-se a crer numa melhoria inevitável e paulatina do mundo, a utopia socialista — influenciada pela Revolução Francesa — já nasceu tentando apressar, através da violência, esse “outro mundo possível”. Jean Delumeau salienta que “Marx, Lênin, Mao e Pol Pot (como tantos outros hoje) resultam incompreensíveis se não se lhes reintroduz dentro da tradição milenarista em sua versão exacerbada: a que insistia na necessidade de uma ruptura brutal para entrar na era da felicidade”.

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Já o filósofo brasileiro Heraldo Barbuí (1914-1979) também denuncia o caráter milenarista da doutrina de Marx, em seu livro “Marxismo e Religião” cuja citação merece ser lavrada: “Marx disse, mais de uma vez, que o que nós chamamos História não passa de pré-história. Marx põe a sua história numa época posterior à nossa História: e sua história não há de ser uma história de luta de classes, nem de batalhas, nem de impérios que vão e vêm, nem dos Estados, nem de heróis. (…) Essa história marxista há de ser uma história extratemporal, posta num reino mítico, fabuloso, fora de todos os tempos conhecidos e cognoscíveis (…) E o proletariado, classe messiânica, negação de tudo quanto existiu até hoje, há de instaurar esse reino edênico, dialeticamente previsto pelo socialismo científico de Marx e Engels”.

Para Jean Delumeau, o marxismo representa a “culminância mais notória” do milenarismo. E não se pode esquecer que a geração que hoje governa e pensa o mundo é toda ela influenciada pela idéia de revolução — quando não é revolução econômica, é revolução dos costumes. Nem George W. Bush e sua mulher Laura Bush escaparam da mística do Maio de 1968: eles também usaram drogas na juventude, segundo relatos de uma biógrafa não autorizada da família Bush (a norte-americana Kitty Kelly), parte deles confirmada pelo jornal The New York Times. Graças a essa geração de eternos militantes estudantis, a imaginação não chegou ao poder, mas o poder chegou à imaginação. Cada vez mais, em todo o mundo ocidental, a vida privada vem sendo objeto de devassa pública. Ancorada em ONGs esquerdistas patrocinadas pela ONU, uma expressiva corrente do direito contemporâneo já não se contenta em regular as condutas — que antecipá-las, normatizando intenções. Daí as enxurradas de leis que se arvoram a criminalizar “preconceitos”, instaurando a força o maior dos preconceitos — o fascismo politicamente correto. É o “outro mundo possível”, cada vez mais provável no campo dos costumes.

Nessa esteira de fatos do mito-gerador – mesmo não tendo qualquer razoabilidade – as idéias do Maio de 1968 se tornaram fatos sociais na concepção durkheimiana, uma vez que se constituíram numa espécie de “consciência coletiva” das classes letradas, influenciando, profundamente, áreas como educação, saúde, lazer, comunicação e segurança pública. A idéia de que “um outro mundo é possível” é uma espécie de mito-gerador, que engendra uma série de outros mitos específicos, cada um encarregado de corroer uma parte da sociedade, até destruí-la por inteiro. Um desses mitos diz que todas as pessoas nascem iguais em tudo, inclusive na inteligência, e que basta dar-lhes educação para que elas se tornem brilhantes, até geniais.  Ao contrário do pensamento de Ivan Ilich, toda a educação brasileira pública e privada, baseia-se nessa idéia errônea, que não encontra sustentação nos fatos, apesar do esforço que a academia faz para distorcer pesquisas no sentido de comprová-la. Graças a esses mitos, até os deficientes mentais são empurrados para classes comuns, onde aprendem bem menos do que aprenderiam em classes especiais e ainda atrapalham o desenvolvimento intelectual dos demais alunos.

Outro mito nefasto, derivado do mesmo milenarismo revolucionário, é a idéia de que é preciso educar as pessoas para a tolerância, extraindo delas –  à força de leis intolerantes como as que vemos serem aprovadas hoje nos parlamentos do mundo inteiro – todo e qualquer preconceito. Trata-se da mais pura eugenia social. Uma pessoa sem qualquer preconceito não é pessoa. Nem chega a ser animal, porque eles também têm preconceitos. Talvez seja uma ameba ou uma pedra. O preconceito é imprescindível para a sobrevivência física e moral de qualquer pessoa e qualquer povo “autêntico”. O ser humano não é papel em branco para cientista social escrever o que quer. Talvez isto soe webberiano, mas vamos lá: Cada pessoa é um feixe de impressões e sentimentos desde quando ainda está no útero materno. E, ao longo da vida, como é impossível conhecer tudo o que nos cerca, vamos formando impressões sobre o mundo, muitas vezes incorretas.

Entretanto, é melhor assim do que não ter impressão nenhuma. O automatismo da maioria dos nossos hábitos, imprescindível para a boa convivência em sociedade, só é possível porque formamos conceitos prévios sobre as coisas, independente de corresponderem ou não ao que elas são.

Tendo em vista o ora exposto, o preconceito, como o próprio nome diz, é só um “pré-conceito” necessário diante de uma situação inusitada, para que não se fique totalmente desarmado diante dela. Se o pai não inculca na criança um “pré-conceito” sobre o perigo da tomada elétrica, ela acaba levando choque. Mas o preconceito se dobra a fatos e circunstâncias: depois de crescida, a criança se torna apta a entender o “conceito” de eletricidade e pode dispensar o “pré-conceito”. Assim também são os preconceitos culturais, inclusive o preconceito racial, que não se confunde com racismo. Diante de uma etnia desconhecida, de uma cultura estranha, não é possível não ter preconceito. O preconceito entre portugueses e índios, portugueses e negros e negros e índios era mútuo. Havia até preconceito entre as próprias tribos indígenas, uma vez que o termo “índio” é uma ficção conceitual inventada pelos europeus, que não corresponde à profusão de povos do Novo Mundo, muitos deles inimigos entre si.

Nesse ponto o racismo e preconceito são formas de preconceito racial defensivo. O racismo que hoje dominante é mais do que um preconceito; é um sistema arraigado de idéias que, confrontado com os fatos, prefere expurgar a própria realidade a ter que aceitá-los. Por isso, alguns acadêmicos defendem que nunca houve racismo no Brasil, nem mesmo durante a escravidão. Se tivesse havido racismo, a miscigenação seria impossível. Enquanto o português preconceituoso rendia-se às tentações da carne diante das negras, o anglo-saxão racista era capaz de subjugar o próprio desejo para não confrontar seu sistema de idéias. Hoje, segundo as pesquisas sobre racismo, o brasileiro mais racista costuma ser o nordestino pobre, sobretudo o baiano, quase sempre mulato. Ora, seu preconceito racial não pode ser confundido com racismo: trata-se de estratégia de sobrevivência, num meio em que, mesmo depois da abolição, o negro continuou escravo, já que não tinha para onde ir. O preconceito racial ainda existente no Brasil é resquício dessa trágica complexidade humana relativamente recente, que não será corrigida pela imposição de leis raciais. Pelo contrário, a política de cotas pode transformar em racismo o que é apenas preconceito.

Se houvesse mesmo racismo no Brasil e as cotas raciais conseguissem extirpá-lo, teríamos, então, “o outro mundo possível”? De jeito nenhum. Ainda restariam os feios, por exemplo, mais vítimas de preconceito do que os negros. Tanto que negro bonito, assim como negro rico,  e talentoso não sofrem preconceito, como está evidente na figura do Pelé em ralação aos seus fãs brasileiros e quiçá do mundo inteiro. Na verdade, não existe mundo perfeito, igualitário e feliz. Temos que nos contentar com o que existe e ir consertando seus defeitos pontuais, conscientes de que eles são teimosos e voltam sempre, ainda que com nova cara. O Eclesiastes bíblico já sabia disso, séculos antes de Cristo; por que a filosofia e a ciência esqueceram essa verdade? Toda idéia holista, totalitária, que intenta recriar o mundo do nada, deve ser banida sumariamente. O que o Brasil precisa não é de uma igualdade mentirosa, mas de uma desigualdade justa.

O mérito tem que voltar aos bancos escolares, premiando os melhores alunos. O professor tem de resgatar sua autoridade, recompondo a hierarquia social. A inconsequência juvenil — que emana até de homens e mulheres de cabelos brancos de sorriso e dentes falsos — deve ser derrubada do poder. É preciso resgatar a hierarquia. Ela é o oxigênio da vida. Sempre foi assim: uns mandam, outros obedecem; uns sabem, outros ignoram; uns têm muito, outros têm pouco. O ter, o poder e o saber só se tornam problema quando não são acompanhados de um senso maior do dever. Como ocorre no Brasil: um país em que diploma universitário dá direito a cela especial, como se o crime se tornasse menos grave justamente quando seu autor tem mais consciência dele. Eis aí uma boa pauta para os arautos do “outro mundo possível” — cortar seus privilégios nesse Brasil real, antes de fantasiar igualdades em mundos imaginários.

Diante dessa realidade onde se prefere a mitomania, e outras espécies de chauvinismo e auto-proteção preconceituosa em face  de outrem, vemos pessoas boas serem tidas como más, vemos os malévolos arrastarem multidões para o enfrentamento com seus pares. Estamos diante dum sistema social que verbaliza e prega a discórdia sob a falsa égide de que todos devem ser iguais a todo custo.  Não adiante negar o inegável, recorrer às velhas ideologias travestidas de inovação e superação de suas falhas e antagonismos contraditórios. Ninguém aqui pode mais ser alvo desses insultos a nossa vã inteligência que aprende mais com erros cometidos do que com sucessos obtidos. Muitos não estão dispostos a relegar seus valores e padrões de vida conquistados por merecimento próprio com outros que não respeitam sua integridade moral e intelectual, e estão no direito deles, pois a liberdade de ser e fazer acontecer não existe apenas para quem mora em bairros nobres e frequenta os melhores colégios, estas oportunidades e possibilidades não amputam no pobre e favelado o seu potencial pessoal de crescer e seguir com determinação até conquistar seus mais altos sonhos. É preciso resgatar a magnanimidade e humildade das pessoas e recondicioná-las a serem humanamente viáveis, e não socialmente ou economicamente viáveis. Não podemos aceitar a ditadura dos vitimistas, dos fracassados e invejosos, pois aceitar isso seria assinar a sentença de subserviência aos ditamos de quem não ousa ser  aquilo que pode ser nem mesmo por um minuto e vende-se ao comodismo e vaidades vis que corrompem qualquer ser humano. A realidade está aí bem a nossa frente para comprovar isto, basta encará-la face a face e enxergar o óbvio ululante.

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 15 de maio de 2015, em Filosofia e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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