A janela impossível

Era um bairro antigo próximo ao centro e praticamente histórico naquela pequena cidade do interior. As pessoas que ainda residiam naquele recanto já eram velhas e com passar do tempo o asfalto tomou lugar dos paralelepípedos de outrora. Não havia muita gente nova como antes, todos que haviam nascido naquela rua tinham estudado e ido embora para cidades maiores para trabalhar em melhores postos de emprego e fazer suas vidas bem longe dali.

A casa que Alberto morava era fruto da herança do falecido pai, um rico comerciante que tinha sido um pai ausente e um marido que traiu a mãe dele com a empregada doméstica. Tinha um meio irmão que era fruto do adultério, mas este estava preso numa instituição psiquiátrica desde a adolescência e nunca fora problema para ninguém da família destroçada pela traição paterna.

Com Alberto, morava sua mãe, uma velha hipocondríaca que dependia do auxílio do filho para ter comida e teto, visto que seus vencimentos como professora aposentada eram gastos em dízimos e farmácias. A esposa dele era uma mulher pouco bonita e magra demais que atuava na advocacia na área do direito de família especializada em divórcios e inventários. Ela passava suas horas livres em salões de beleza e lojas de roupas gastando seus honorários. Quem sustentava a casa e o único filho do casal e a velhota que servia como empregada doméstica por conseqüência disso era Alberto um bancário comum e quase sem amigos que tinha por hobby ler livros de história e ver documentários na TV a cabo.

Naquela manhã de segunda feira, depois dum final de semana típico comendo rodízio e passeando no parque como filho, ele acordou cedo para levar o filho para o colégio particular. Retirou seu pijama azul e pantufas amarelas e foi acordar o menino que estava no quarto ao lado com um livro da Branca de Neve sobre o peito sempre na mesma página há noites. Já havia até rasgado a página com a ilustração do Dunga e colado na porta. O garoto era um tanto teimoso e não queria ir ao colégio naquela manhã fria. O pai com certa delicadeza fez o menino colocar seu uniforme vermelho e o escovar os dentes enquanto preparava uma tigela de sucrilhos para o garoto que detestava qualquer outro alimento pela manhã.

Depois de levar o garoto para escola era hora de acordar a esposa que passava boa parte da noite acordada sem fazer muita coisa além de papear na internet e visitar sites de compras e viagens para planejar suas próximas férias e aquisições. O casal tomava café juntos, o qual era preparado pela vagarosa sogra que tinha acordado bem antes e ido para padaria comprar leite e pão e sempre voltava reclamando de dores nas pernas ou costas e dos preços dos alimentos que sempre subiam mês após mês. Essa rotina era cumprida todas as manhãs fosse qual fosse a época do ano. Só era interrompida nas férias escolares ou de final de ano, quando a casa tornava-se reduto exclusivo da velhota beneficiária das merrecas do INSS.

Numa dessas manhãs Alberto acordou com as marretadas duma obra de reforma na casa da vizinha, outra velha aposentada e doentia, essa vivia da herança do marido rico fazendeiro. Aquelas marretadas repetidas que quebravam o muro para ampliar um dos cômodos do sobrado ao lado que fazia sombra na casa térrea herdada era insuportáveis. Aquilo irritou Alberto que foi reclamar ainda com seu pijama tradicional com os pedreiros e interrompeu a demolição do muro dizendo que poderia haver algum encanamento que poderia ser rompido. Houve um pouco de discussão acalorada e quando a demandante da obra apareceu com a cara envolta num lenço vermelho e roupão da mesma coloração devido ao vento daquela manhã ela ordenou que cessassem a obra naquela dia alegando que iria consultar um engenheiro para não haver problemas com o vizinho. Nada disso foi feito, e seis meses depois o cômodo estendido da casa da vizinha matava completamente a iluminação natural da sala de estar da casa de Alberto e causava mofo em alguns cantos da parede. Mesmo com a mulher sendo advogada nada foi feito para resolver esse problema e noite após noite a velha mãe de Alberto passava suas noites em companhia do neto assistindo telejornais e novelas naquela sala sem se dar conta que desenvolvia uma tosse devido a esse hábito…

No trabalho Alberto também não tinha muitas emoções. Praticamente passava o dia concedendo ou negando empréstimos para os clientes economicamente inviáveis que saiam da sua presença frustrados por não terem auxílios financeiros mesmo sendo há muito tempo correntistas daquele banco. Sua rotina doméstica e laboral era um tédio e estava agravando seu problema de coluna por passar horas e horas sentado atrás duma mesa ou em frente da TV ou do computador pesquisando sobre assuntos variados ligados a política e história. Além disso estava gordo e desenvolvendo problemas cardíacos devido fumar muito, viver no  sedentarismo e fazer uma dieta hiper-sódica. Raramente saía com a esposa que sempre estava em companhia das amigas dondocas em algum evento ou passeio. Assim ele passava como uma espécie de babá do filho em idade escolar o ajudando em lições de casa e auxiliando a mãe em outros afazeres pós jantar.

Numa dessas noites tão previsíveis, quando a velha e o garoto já tinham ido dormir, e enquanto a esposa não chegava duma festinha, Alberto foi até o quintal, brincou um pouco com o pastor alemão e ficou andando em círculos fumando um cigarro enquanto apreciava o céu estrelado. Passarem-se alguns minutos até ouvir o carro da esposa estacionar em frente da casa esperando por ele como se ele fosse o manobrista que teria que guardar o carro. Resolveu entrar na casa e conversar um pouco com a esposa, mas quando entrou na casa mal reconheceu o ambiente. Parecia outra casa, um outro lugar, a cozinha estava com a pia repleta de louça suja e as lâmpadas falhavam, o teto desmoronava corroído de cupins. Alberto ficou olhando para as paredes mofadas e móveis velhos da copa espantando com aquilo e foi até a sombria sala de estar e ao invés de se deparar com a esposa que tinha chegado se deparou com um marmanjo gordo sentado numa poltrona assistindo um filme cult com viés ideológico de esquerda. Surpreso com aquilo ficou pasmado olhando para o rapaz que ao perceber Alberto ali estático perguntou: O que foi coroa? Está passando bem? Alberto não sabia o que responder e passou a achar que estava sonhando. Foi até o quarto e não havia mais roupas e roupas no carpete, aquelas que a esposa sempre deixava como rastro de indecisão no que vestir, havia apenas a velha cama de casal, um guarda roupa com portas quebradas e uma escrivaninha repleta de jornais. Sem saber do que se tratava toda aquela situação Alberto foi surpreendido novamente pelo marmanjo barrigudo e barbado que trazia um copo de água e um comprimido dizendo para ele tomar e ir dormir. Alberto atônito com tudo aquilo ainda pensava em estar sonhando, pegou o comprimido enfiou goela abaixo e lentamente bebeu a água daquele copo de requeijão e ficou lendo os velhos jornais que narravam a derrocada sócio-econômica do país nos últimos dez anos como se aquilo fosse um filme surreal. Dormiu sobre a mesa e acordou ao amanhecer com as marretadas da obra da casa da vizinha como meses atrás havia acontecido.

Ao acordar notou que o quarto já não era o mesmo nem da noite passada nem mesmo dos meses anteriores. Era um luxuoso quarto decorado com móveis finos e equipado com aparelhos eletrônicos de última geração. Olhou para cama e sua esposa estava lá dormindo como sempre envolta em lençóis imaculadamente brancos com uma gargantilha de ouro reluzente no pescoço. Alberto se dirigiu para uma porta a qual julgava ser de saída do quarto, mas era a porta que dava para o banheiro da suíte do casal e arregalou os olhos ao ver uma banheira de hidromassagem instalada onde até então ele julgava ser o corredor de acesso para o restante da casa. Ficou ali segurando a maçaneta alguns segundos observando aquele suntuoso banheiro ornado de cremes finos femininos nas prateleiras de mármore e azulejos de porcelanato fino.

Resolveu se olhar no espelho do banheiro e viu um homem que não tinha mais calvice nem traços dum bancário sedentário entediado pela sua vida diária sem emoções. Alberto estava com a mesma idade, mas aparentava mais moço e feliz, com massa muscular semelhante a de quem se exercita com freqüência, coisa que ele nunca fez. Abriu a torneira lavou o rosto, passou a mão no cabelo e sentia que os fios de cabelo que tinham o abandonado estavam ainda ali, passou a mão no tórax e braços e notou que tinha peitoral e bíceps semelhantes dum jovem bombado na flor da idade. Ficou ali se olhando no espelho analisando cada detalhe de sua figura e sentido-se como se vivesse num mundo paralelo a realidade. Foi interrompido pela esposa que acordara e viera ao banheiro passando levemente perfumada pelas costas dele e sem dizer nada ela entrou no box de blindex tomar uma ducha e Alberto ficou olhando a silhueta dela envolta no vapor emanado da água quente da ducha sem reconhecer o corpo esbelto da esposa que tinha deixado de ser a magra para se tornar numa mulher digna de capa de revista pornográfica.

Com as mãos na cabeça e coração disparado saiu do banheiro sem compreender nada do que ocorrera antes na noite anterior e menos ainda naquela manhã. Mais uma vez foi interrompido de seus pensamentos sem respostas por uma voz que lhe perguntava: Doutor Alberto o senhor vai tomar café já ou vai aguardar mais um pouco?  Nunca ninguém tinha lhe chamado sequer de doutor e muito menos perguntado sobre a que momento desejava tomar o café. Virou-se e ficou encarado a empregada mulata que também olhava para ele como se ele tivesse algo a dizer, mas Alberto apenas acenou com a cabeça para a mulher e voltou para o quarto onde a esposa terminava de se enxugar e pedia sugestões do marido para  a recepção de distintos amigos que iriam fazer naquela noite em sua casa. Alberto só gaguejou um simples e curto “não sei” e saiu do quarto tomar café numa mesa previamente arrumada pela empregada.

Enquanto tomava café, sem ao menos sentir o sabor ou temperatura da bebida ainda ouvia as marretadas das obras nas vizinhanças, as quais pereciam ter sido triplicadas. Saiu da mesa e correu até rua e viu que não havia vizinhos como antes, mas sim obras de construções de diversas casas ao seu redor. Casas enormes e de arquitetura semelhante de revistas de artistas. Aquela velha rua que ele residia parecia ter se transformado da noite para o dia num condomínio fechado de luxo.  Ficou sem compreender nada e logo uma van escolar parou e seu filho saiu alegremente para mais um dia de aula se despedindo dele.

Voltou para o interior da residência e viu que a sala mofada tinha desaparecido e se tornado uma ampla sala de visitas com direito a um bar cheio de vinhos e bebidas caras e com iluminação natural e elétrica que ele fez questão de atestar acionando diversas vezes o interruptor daqueles lustres cheios de cristal. A empregada que passava por ali o repreendeu pelo gesto sem sentido e disse que ele estava ficando louco e Alberto disse para si próprio: Devo estar louco mesmo essa não era a casa que eu morava! Depois disso sentou-se num sofá requintado e passou a ler o jornal daquele dia dizendo que o país estava numa onda de desenvolvimento sem precedentes e que a riqueza da classe mais abastada estava batendo recordes e que o desafio ainda era erradicar a pobreza e desigualdade social. Aquele artigo o deixou ainda mais perturbado devido contrariar o que havia lido na noite anterior nos jornais empilhados numa mesa comida por cupins numa casa caindo aos pedaços que nada tinha a ver sequer com seu antigo lar modesto e bem cuidado.

Ficou horas lendo jornais e acessando todas notícias e viu que o país e mundo tinham entrado numa grande onda em favor do capitalismo de estado e que os antigos socialistas de antes estavam todos rendidos para o atual regime financeiro mundial. Ficou o resto do dia digerindo aquelas informações e quando a noite chegou e os convidados do jantar chegaram ele notou que não era mais um bancário comum concursado num banco estatal, mas que era um homem bem relacionado que muitos paparicavam e lhe pediam conselhos de investimentos e sugestões de quem apoiar na política local e regional. Queiram até mesmo que ele ocupasse um cargo na municipalidade e fizesse alguma benfeitoria social para os menos sortudos que não tinham estudado e aproveitado a fase virtuosa da economia mundial.

Mesmo ainda achando que era um sonho ou uma espécie de mundo paralelo, Alberto acreditava piamente que aquilo não era realidade. Depois do jantar, fez amor com sua bela esposa e acordou na mesma cama ao lado de sua mulher que dormia profundamente como sempre. Levantou-se retirou seu pijama habitual, fez a barba, tomou um banho quente, colocou terno e gravata e foi tomar seu desjejum. Logo seu celular de última geração toca no bolso do paletó que repousava sobre a cadeira e ele atende. Do outro lado da linha é seu advogado dizendo que ele deveria fazer as malas e sair o quanto antes do país, pois uma operação da Polícia Federal estava com mandado de prisão prestes a ser cumprido nos próximos dias. Alberto tentou saber exatamente do que se tratava, porém o advogado afobado do outro lado só dizia: Se manda a casa caiu Alberto!

Sem saber do que se tratava Alberto questionou a esposa sobre aquilo. Ela que estava se  sentando à mesa naquele momento fez uma cara de espanto como se soubesse de cada detalhe desconhecido por Alberto e logo se apavorou, perdeu o apetite e subiu correndo para o quarto onde retirou uma mochila debaixo da cama king size e abriu um cofre e começou a encher de dólares dizendo para Alberto que testemunhava tudo aquilo sem saber o que era: Ande logo homem! Se mexa! Faça alguma coisa precisamos sumir daqui logo e ir para um lugar seguro!

Alberto saiu dali e foi até seu escritório caseiro pesquisar o assunto na internet e muita coisa era relatada sobre o caso que tinha gerado aquela ligação repentina do advogado. Alberto era citado como envolvido num grande desvio de verbas como operador dum esquema de corrupção. Sem compreender nada de antes nem do seu suposto presente ficou sem ar e com medo de ir preso, e já que a única opção era fugir ele se convenceu que tinha que entrar naquela brincadeira surreal e cair fora dali junto de sua família. Levantou-se apavorado e ascendeu um cigarro, deus duas longas tragadas e se afogou com a fumaça. Correu até a janela, e a abriu para recuperar o fôlego e viu seu pastor alemão com a língua de fora no jardim. Já que tinha que fugir tinha que levar seu cão junto dele, pulou a janela e foi em direção ao cachorro desesperadamente e acabou tropeçando numa mangueira oculta na grama do jardim.

Quando acordou estava tudo escuro e seu cão lambia sua face, ele tentou se levantar do chão e notou que estava no quintal de sua casa naquele mesmo momento que sua esposa tinha acabado de chegar. Tentou levantar-se do chão mais uma vez e teve um enfarte e morreu horas depois numa maca por não ter plano de saúde deixando esposa, filho e cachorro e sua casa como herança com o IPTU atrasado…

Anos depois seu filho Alberto Junior se tornou um rico empreiteiro e deputado federal que foi em cana extraditado da França por ter fraudado um fundo de pensão do governo depois de passar anos foragido.

PS:Qualquer similaridade com fatos reais é mera coincidência.

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 18 de outubro de 2014, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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