Há algo errado na pornografia?

Muitas pessoas acham que há algo moralmente errado na pornografia. Algumas vão mesmo mais longe a concluem que a pornografia devia ser proibida.

Quais são os seus argumentos? Encontro vários.

1. A pornografia leva à instrumentalização das pessoas envolvidas, tratando-as como meros meios para os nossos fins e não como pessoas dignas de consideração moral, o que é inaceitável. Há quem prefira dizer que a pornografia trata as pessoas como objectos e não como pessoas com os seus afectos, as suas aspirações e os seus direitos.

Este argumento parece-me muito fraco. Em primeiro lugar porque só há instrumentalização se não houver consentimento das pessoas envolvidas ou se estas forem forçadas pelas circunstâncias da sua vida a consentir. Uma pessoa que consinta livremente em ser tratada como um mero objecto físico, não está a ser instrumentalizada. E uma pessoa que consinta livremente em fazer algo em troca de dinheiro apenas para alguém retirar daí prazer sexual também não está a ser instrumentalizada.

Mas é falso que não haja pessoas que consintam livremente tal coisa. Logo, nesses casos não há instrumentalização.

Além disso, a instrumentalização não é, só por si, justificação para proibir seja o que for. Caso contrário, também teria de se proibir as pessoas de trabalhar em troca de dinheiro (quase todas). Uma pessoa que trabalhe a carregar tijolos numa obra, por exemplo, também está a vender o seu corpo e a sua força de trabalho. E é só porque lhe pagam que o faz. Mas não passa pela cabeça de alguém dizer que isso é errado ou que devia ser proibido.

Qual é, neste aspecto, a diferença entre um modelo fotográfico e um actor pornográfico? A diferença é que num caso se trata de actividades sexuais e no outro não; não é o facto de um estar a ser instrumentalizado e o outro não. Portanto, este argumento não colhe.

2. A pornografia leva à subjugação das mulheres. Este argumento é uma particularização do anterior e assenta na ideia de que as mulheres são levadas à pornografia empurradas, contra a sua vontade, pelas circunstâncias em que vivem.

Este argumento quase não merece ser discutido, dado ser tão obviamente fraco. Mesmo que fosse verdade que todas as mulheres fossem subjugadas contra a sua vontade (o que não é verdade), isso não seria suficiente para reprovar a pornografia, pois não se aplicaria aos filmes pornográficos só com homens.

Além disso, há muita pornografia que nem sequer usa homens nem mulheres, como é o caso das histórias pornográficas, das esculturas pornográficas ou da banda desenhada pornográfica. Posso pintar durante a noite um grande mural pornográfico na minha rua, sem sequer usar qualquer modelo.

A resposta a isto é, muitas vezes, que aí é a própria ideia de mulher como um ser submisso que está a ser promovida e que isso deve ser impedido. Mas, mais uma vez, a pornografia não envolve apenas as mulheres.

3. A pornografia incita à violência, dado que muita violência está ligada à pornografia. Ora o que incita à violência deve ser impedido. Logo, não devemos permitir a divulgação da pornografia.

Para avaliar este argumento precisamos de saber se a premissa que diz que a pornografia incita à violência é verdadeira. Isso é algo que só investigações empíricas podem mostrar. Li que houve estudos nesse sentido, em que se expôs à pornografia grupos de pessoas violentas (delinquentes, etc. ) e grupos de pessoas não violentas e que as violentas aderiam mais à pornografia e consumiam mais do que as outras.

Ma será que isto mostra que é a pornografia que leva à violência? Não será antes que essas pessoas consomem mais pornografia porque são violentas? De resto, há muitas outras coisas que até podem levar à violência, mas que não devem nem podem ser proibidos por isso. Por exemplo, o futebol leva muitas vezes à violência. Mas não passa pela cabeça das pessoas proibir o futebol.

4. Muitas pessoas sentem-se chocadas e ofendidas com a pornografia e têm o direito de não o ser, dado que é sentido por essas pessoas como um dano pessoal.

Este argumento também é mau, pois nesse caso poderíamos proibir seja o que for, dado que qualquer pessoa se pode sentir chocada e ofendida com qualquer coisa. Tudo o que uma pessoa que se sinta chocada com isso tem de fazer é evitá-lo; não é impedir de usufruir disso os outros que não se sentem chocados.

5. Se impedimos as nossas crianças de consumir pornografia, então é porque intuitivamente sabemos que a pornografia não é uma coisa boa.

Bom, eu não deixo o meu filho de 11 anos andar com mais de 5 Euros na carteira, nem conduzir automóveis, nem deitar-se às tantas da noite, nem ver horas seguidas de desenhos animados. Será que isso mostra que há algo errado em andar com mais de 5 euros na carteira, conduzir automóveis, deitar-se às tantas, etc.? Claro que não. Apenas significa que não é adequado para aquela idade, tal como não é adequado dizer ao meu filho para ler a Divina Comédia, de Dante. De resto, não me passa pela cabeça mudar de canal quando aparecem mulheres (ou homens) nuas na TV e o meu filho está a ver.

Aliás, mesmo que isso fosse moralmente errado, não seria razão suficiente para o proibir. Também achamos errado mentir e não nos passa pela cabeça proibir a mentira, embora seja recomendável evitá-la.

A pornografia pode ser uma coisa feia e de mau gosto. Mas daí a censurar a pornografia vai um passo enorme. As pessoas têm o direito de consumir coisas feias e de mau gosto.

Assim, não se vê o que há de errado em representar explicitamente actos sexuais com o fim exclusivo de provocar excitação sexual.

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 4 de agosto de 2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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