Alienados por Nietzsche e Marx

Hitler foi um bom rapaz. Isso mesmo, ele foi bom. Depois de ler Nietzsche acho que ele se tornou maléfico e sociopata. (Como nosso querido Octávio Henrique) Os amigos de juventude do jovem Adolf descreviam-no como um cristão sério e devoto, dotado de coração terno e generoso, paciente e amoroso, qualidades que demonstrou amplamente enquanto cuidava da mãe moribunda falecida 1907.

Se Adolf fosse analfabeto ou, ainda, tivesse sido um bad-boy cabeça oca que somente se interessasse em zoar e pegar as minas e beber cerveja até cair como o Chico Satã, o mundo poderia ter passado sem tudo aquilo que ele criou depois de ler Nietzsche. Porém, o imberbe Adolf embora não fosse exatamente um bom estudante, era moço de família e ocupava seu tempo livre de forma útil: lendo filósofos alemães. Ah ele também era vegetariano.

Depois de ter ficado com suas convicções morais e religiosas abaladas pelas idéias de Schopenhauer, achou pouco e, aos quinze anos, o tennager Adolf, estava lendo a obra de Friedrich Nietzsche. Ficou impressionado com “A Genealogia da Moral”  toda aquela reavaliação de valores para enfim concluir que “o bem é o mal e o mal é o bem”. Dividida em três tratados, a obra contesta a vigente  na época e ainda hoje distinção entre bem e mal considerando tal distinção um encarceramento do entendimento e uma distorção da realidade promovida pelo pensamento cristão ocidental e sua “moralidade para escravos”.

Nietzsche criticava especialmente o altruísmo sem explicação e a quase que santificação da miséria, da doença e da fraqueza inspirada pelo pensamento cristão. Idéias de derrotados cuja elaboração o filósofo atribuía aos judeus, que haviam feito o desfavor de legar essa excrescência lógica à doutrina cristã.Em outras palavras, o Cristianismo tal como era apresentado pelo Vaticano era uma religião de ressentidos feita  por derrotados e para derrotados, religião para aqueles que eram os restos murchos da escória da raça humana.

Besta Loura: Hitler, excitadíssimo com essas idéias, mais entusiasmado ficou  com o pensamento de Nietzsche sobre As Tribos da Antiga Germânia. Foi na mesma obra, Genealogia da Moral, que o filósofo do bigodudo introduziu, em sua linha de pensamento, a figura controversa da Besta Loura (que aliás existe mesmo: loura, morena, pele vermelha, amarela, besta de bigodão, em conheço vários espécimes –  Enfim, a bestagem, na verdade, não escolhe etnia, religião ou patrimônio); mas voltando à Besta Loura nietzschiana, era, inicialmente, uma metáfora que se referia ao leão, o mamífero felino predador, dito rei dos animais. Neste sentido, a expressão Besta Loura foi usada primeiramente em Assim falou Zaratustra.

Nietzsche comprava o processo de cristianização dos povos nórdico-germânicos, as Bestas Louras no “Crepúsculo dos Ídolos”, a uma espécie de tentativa de domesticação de animais. Os animais domesticados, domados, na verdade não têm seu comportamento aprimorado; antes, são enfraquecidos pela ação do medo, da dor, das feridas, da fome e, assim, tornam-se bestas doentes; sofrem de depressão. O mesmo aconteceu com os homens que os padres e pastores se encarregaram de domesticar (catequizar) na Idade Média, quando a Igreja era, sobretudo, um zoológico magnífico de espécimes de bestas louras (arianos) foram caçados em toda parte; e assim, os nobres teutões foram domesticados. Tornaram-se caricaturas de homens, e foram informados e acreditaram que eram pecadores, presos em uma jaula feita de todo tipo de terríveis conceitos da moral judaico cristã. E ali os nobres teutões permanecem: doentes, miseráveis, maldosos contra si mesmos; cheios de ódio e repulsa pela alegria de viver, cheios de desconfiança contra tudo o que seja forte e feliz. Em resumo, os nobres teutões foram reduzidos ao estado de ignóbeis cristãos.

Algumas décadas depois durante a cena nazi-ocultista a questão religiosa, do ponto de vista da política social, era complexa. Nem todo o orgulho do povo alemão seria capaz de produzir uma repentina rejeição radical, em massa, ao Cristianismo. Os pensadores nazistas consultavam seus alfarrábios de seus teólogos, filósofos, ocultistas, historiadores, arqueólogos ─ de Guido von List a Schopenhauer e Nietzsche, tudo em busca de elementos capazes de compor uma doutrina religiosa nazista que conciliasse a fé popular, cristã católica ou luterana, com a imagem de um Cristo completamente desassociado do judaísmo. O próprio Nietsche em suas duras críticas, não mirava Jesus; atacava, na verdade as Igrejas como o cristianismo instituído via essas entidades detentoras da moral de massa, fossem estas de cunho católico ou luterano.

Os moderados, mais politicamente realistas ou astutos, propunham uma purgação na substância histórica filosófica e doutrinária do Cristianismo. Alegavam que o Cristianismo estava contaminado pelo judaísmo e corrompido pela indigência moral de seus ministros, desde o Papa até baixo clero. A recuperação da pureza cristã poderia ser feita por meio da arianização. Essa proeza foi realizada pelos cientistas da Ahnenerbe (o ministério da cultura nazi) que descobriram a  verdadeira etnia atlante-amorita-ariana de Jesus, negada ou pior, ignorada, escondida pelos Apóstolos que, afinal de contas, eram semitas judeus que passaram a vida como ratos de sinagogas.
Essa apropriação indébita daqueles apóstolos judeus foi especialmente elaborada pelos discípulos de Paulo de Tarso, o apóstolo que “não era apóstolo”, mas sim um cidadão romano e erudito do judaísmo, ou melhor, um pseudo cristão de última hora por conta de um suposto milagre (que bem poderia ter sido a cura espontânea de uma conjuntivite grave após uma queda do cavalo ocasionada por um clarão). Paulo teria usado sua erudição para elaborar a doutrina cristã que se tornou oficial. Para Nietzsche, assim como para muitos outros estudiosos, o Cristianismo, ainda hoje, em essência, é muito mais um paulinismo e, para os nazistas, um judaísmo para alemão ver.

Embora Adolf tivesse se distanciado do cristianismo desde a adolescência, ele jamais assumiu isso diante da multidão. Médium, psicopata, marionete de cúpula, ditador, estadista, Adolf podia ser muita coisa, mas não era insano o bastante para atacar de peito aberto a fé cristã do povo alemão. Todavia, ele se detinha diante dessa questão sendo cuidadoso em elaborar suas teses preconceituosas fundadas em Nietzsche. Nem o Cristianismo positivo recebeu seu apoio oficial. Envenenados ou não, o povo alemão adorava Jesus.

Através da Ahnenerbe o Terceiro Reich divulgava seu discurso conciliatório a fim de apaziguar as dúvidas que naturalmente tomariam o espírito dum alemão mais esclarecido: Como exterminar os judeus se Cristo os havia perdoado e se o próprio Cristo era judeu? A resposta era simples: Cristo nunca foi judeu, nunca foi cordeiro e, de bom grado, teria acomodado os judeus em um cinzeiro master sux. E mesmo o cristianismo positivo representava uma fase de transição, até o glorioso e definitivo retorno da tradição nórdica. Entretanto, secretamente, Adolf  e seus confrades faziam coro aos protestos de Nietzsche em Anticristo.

Assim eles julgavam os judeus como o povo mais catastrófico da história do mundo e o cristão que achar que não é judeu; não compreende que ele mesmo em sua essência, cristão atualmente é a última conseqüência do judaísmo. O que era, inicialmente, somente uma doença, hoje é uma indecência. É indecente ser cristão atualmente.  O cristianismo condenado por Nietzsche e “transvalorado” pelo Nazismo, hoje recebe o mesmo tratamento pelo marxismo heterodoxo, contra a Igreja Cristã (católica, luterana e assemelhadas) a mais terrível de todas as acusações: Culpada da maior corrupção já concebida, com seu ideal de anemia, de santidade, drenando todo o sangue, todo o amor, toda a esperança de vida; a cruz é a marca de recordação da maior conspiração subterrânea que jamais existiu contra a saúde, a beleza, contra tudo que proporciona bem-estar, contra a coragem, contra a elegância da alma, contra a vida em si mesma.

A influência de Nietzsche na ideologia político-esotérica nazista se faz presente em temas importantes do corpo de idéias místicas-nacionalistas. Sua obra forneceu argumentos filosóficos, suporte lógico que foi incorporado mais ou menos sutilmente às doutrinas-chave cultivadas pelo Terceiro Reich:

  • o Anticristianismo oculto e o regate da religiosidade pagã
  • Cristianismo Positivo, que estava sendo preparado para as massas germânicas
  • a doutrina da superioridade dos teutões – da raça, dos germanos – por sua bravura e nobreza (sem falar na beleza ariana) e, por extensão, a superioridade da raça ariana, das hordas Bestas Louras. [Sobre o espírito das hordas de Bestas Louras este articulista balbucia a sugestão de audição de Imigrant Song do Led Zeppelin].
  • Validação da Lei do mais forte em termos filosóficos.

Atribuída a Darwin, na verdade essa simplificação do enunciado resulta em corrupção da idéia darwinista, mais corretamente enunciada como Lei dos mais aptos em face de determinadas circunstâncias, ou seja, forte, não necessariamente no sentido de envergadura corporal: altura, peso, compleição física. Existem muitos tipos de força. Sobrepõe-se aquela cuja natureza mostra-se superior em determinadas circunstâncias. Darwin não nega esse fato. Em Nietzsche, porém, o conceito de apto é apresentado em termos pouco nobres e, veladamente, refere-se aos judeus na Europa.

No tocante ao célebre combate pela vida ele termina, infelizmente, ao inverso do que a escola de Darwin deseja, ou seja, em desfavor dos fortes, dos privilegiados, das exceções felizes. Os fracos se tornam sempre e de novo senhores dos fortes ─ é que são grande número os fracos e também são mais espertos. Darwin esqueceu o espírito. É preciso necessitar de espírito, para adquirir espírito. Entendendo por espírito: a cautela, a paciência, o ardil, o disfarce, o grande autodomínio conforme o pensamento de Nietzsche. Assim, a mortandade em massa dos judeus no Holocausto deixa claro, por extensão, o anti-semitismo nietzscheano.

Avaliando o movimento natural de todas as coisas, aquilo que se chama, sem consideração de mérito, evolução, Nietzsche chama a atenção para os processos de extinção de organismos ou instituições que perderam utilidade, sentido, razão de ser. Todo acontecer no mundo é um eterno sobrepujar, um tornar-se senhor; e todo sobrepujar e tornar-se senhor é um interpretar de modo novo um ajustamento. Mais adiante, falando dos significados e justificativas/legitimações históricas da instituição do castigo, Nietzsche menciona a segregação dum elemento degenerante em certas circunstâncias, de um ramo inteiro. Portanto, como meio de manter pura a raça ou de manter firme um tipo social como uma espécie entre os castigos necessários aos naturais ajustamentos do organismo social.

 

Continua…

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 28 de fevereiro de 2012, em Filosofia. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Acho que Nieztche não soube expressar, algumas coisas, com a devida delicadeza que deveria ser empregada.

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