O Jornalismo Gonzo

Por André Julião

No estilo narrativo chamado de Jornalismo Gonzo. Hunter S. Thompson, que se intitulava criador dessa categoria, dá ao seu trabalho mais importante o titulo de Medo e Delírio em Las Vegas. Trata-se de um livro (com versão cinematográfica de Terry Gillian, tendo Johnny Depp como Thompson e Benicio Del Toro como seu advogado “parceiro de crime”) em que o jornalista narra uma viagem à terra dos cassinos, segundo ele, em busca do Sonho Americano.

Na maioria das vezes em suas narrativas, o que Thompson está sentindo é fruto de alucinações geradas pelo consumo exagerado de drogas. Contribui para isso o fato de que, freqüentemente, ele estava transgredindo a lei. Usava um nome falso (Raoul Duke) para registrar-se em hotéis e alugar carros velozes. Sempre saindo sem pagar. Não bastasse, ele andava sempre armado.

A “dupla” medo e delírio foi usada em outras peças jornalísticas de Thompson, como no livro sobre a campanha presidencial estadunidense de 1972 (Fear and Loathing in Campaing Trail’72). No Brasil, um nome conhecido desse tipo peculiar de Jornalismo é o gaúcho André Czarnobai, o Cardoso. Autor de uma das primeiras monografias acadêmicas sobre o tema no País ele mantém esta revista eletrônica com narrativas Gonzo. A Irmandade Raoul Duke mantém em seus arquivos textos de diversos autores. Em um deles, do próprio Cardoso, notamos o medo presente (acompanhado de bom humor):

Meu procurador terminava de comer uma à la minuta com frango quando me aproximei de sua mesa. “Estou sendo seguido”, disse. Ele olhou para os dois lados, largou o garfo e bateu na mesa esbravejando: “Então precisamos sair daqui imediatamente”. “Não” Respondi. “Isso vai nos expor. Seremos uma presa fácil.” Meu procurador parece perturbado. “Então vamos pedir uma cerveja.” Não é um argumento que eu vá questionar, especialmente a essa altura do campeonato. O Cotiporã permanece num irritante vazio. Do outro lado da rua os coloninhos continuam à minha caça. Numa das esquinas mais movimentadas da Cidade Baixa é inquietante o fato de ser um dos únicos a beber num sábado à noite.

Quem cunhou o termo “Gonzo” foi Bill Cardoso, jornalista e amigo de Thompson. Numa carta sobre o texto O Kentucky Derby é decadente e depravado, ele teria escrito: “Eu não sei que porra você está fazendo, mas você mudou tudo. É totalmente gonzo”. Conforme o amigo de Thompson, a palavra foi originada da gíria franco-canadense gonzeaux, que significaria algo como “caminho iluminado”.

Quem dá a explicação é Cardoso, o autor gaúcho, em sua monografia Gonzo: o filho bastardo do New Journalism (Aliás, vou dizer logo: seu apelido não tem nada a ver com o Bill Cardoso).

O Novo Jornalismo surgiu com esse nome na década de 60, auge da contracultura nos Estados Unidos. Autores como Truman Capote (que dizia ter inaugurado o “romance sem ficção” com A sangue frio), Gay Talese (que falou sobre famosos e anônimos como quem escrevia contos), Tom Wolfe (autor, entre reportagens e romances, do ensaio O Novo Jornalismo) fizeram parte dessa “escola”. O que se praticava eram reportagens que usavam técnicas de captação e redação usadas na ficção. Antes deles, na década de 40, John Hersey escreveu Hiroshima e Joseph Mitchell, O segredo de Joe Gould, dois clássicos do Jornalismo Literário.

Se o Novo Jornalismo era uma revolução, o Jornalismo Gonzo era uma radicalização deste. Enquanto o primeiro ainda buscava certa “imparcialidade”, com o uso da terceira pessoa e raras e disfarçadas opiniões do repórter, o Gonzo fazia tudo às claras. O “novo jornalista” teria que, obrigatoriamente, fazer uma imersão no tema que estava tratando. No Gonzo, a imersão apenas não é suficiente. O termo que Cardoso usa é osmose, referenciando o fenômeno biológico no qual dois fluidos misturam-se gradualmente através de uma membrana porosa. Fazendo uma comparação, o primeiro fluido é o Gonzo Jornalista e o segundo, o objeto de sua investigação. A membrana porosa é o ato da reportagem em si, pois é através dela que os dois mundos interferem um no outro. Dessa forma é correto dizer que o repórter gonzo altera o objeto de sua reportagem da mesma forma que o objeto altera o próprio repórter. É quase como se o jornalista precisasse personificar o objeto de sua reportagem, o que remete ao preceito da “coragem de um ator” necessário para o bom Gonzo Jornalista, segundo Thompson.

Essa é a gênese do Gonzo, sua essência. Ao relatar suas sensações sobre o fato que vivenciou – e não só “observou”, como se fosse possível um voyeur que não interferisse no fato – o repórter cria um vínculo com o leitor. Ele não o “engana”, buscando aparentar uma impessoalidade e uma frieza que são impossíveis.

O Jornalismo Gonzo, o sem ficção, afinal, só assim ele poderia ser aceito como prática jornalística. Contudo, essa é minha opinião, faz parte dos meus valores e dos conceitos que sigo de informação. Já Thompson era conhecido como um grande mentiroso, portanto, a presença da ficção em suas reportagens remeteria à sua própria personalidade. Seu amigo John Burton afirma que “mentir é a coisa que ele faz melhor. E ele o faz com total calma e confiança”.

É aí que entra uma “nova” definição de Jornalismo Gonzo. Não seria, obrigatoriamente, uma narrativa cheia de sarcasmo, com presença de drogas e de uma ficção dissimulada, mas, sim, um estilo totalmente subjetivo, que reflete a personalidade do autor e sua interpretação do fato. Usando todas as técnicas do Gonzo, de captação ultra participativa (osmose), não separação da figura do jornalista e de sua obra (subjetividade extrema), mas sem usar a ficção, pode-se dizer que o Gonzo é a mais sincera das categorias de Jornalismo. Nenhum relato é isento. Sempre haverá naquelas linhas “imparciais” do texto jornalístico comum uma série de valores, idéias e a visão de mundo do repórter, para não falar da linha-editorial do veículo de comunicação para qual trabalha. Portanto, o relato de um fato sob a perspectiva declarada do repórter, sem omitir que aquilo é uma interpretação sua, dá muito mais credibilidade a uma notícia.

Contudo, é necessária certa cautela e “distanciamento” em alguns assuntos (Estatuto do Desarmamento, por exemplo). Mas, em outros, a experiência do repórter vale muito mais. Alguns exemplos: o dia-a-dia de soldados numa guerra (John Sack em M, quando lutou na Guerra do Vietnã); a situação de um time (George Plimpton em Paper Lion, em que treinou com os atletas do time de futebol americano Detroit Lion e até disputou uma partida); um retrato das décadas de 60 e 70 nos EUA, em que o consumo de drogas era intenso e hipocritamente omitido (Hunter Thompson em Medo e Delírio em Las Vegas). Os repórteres foram protagonistas nessas ocasiões e fizeram considerações muito mais fiéis da realidade do que se agissem como meros espectadores “imparciais”.

Como dira outro doutor, neste caso o Dr.House: “Mentiras são como as crianças: apesar de incovenientes, o futuro depende delas”.

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Sobre Aloprado Alonso

O cara mais aloprado da internet - barbudo, blogueiro, rockeiro, mulherengo e sempre tentando parar de fumar ...

Publicado em 15 de maio de 2011, em Comportamento. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Jornalismo gonzo

    O originador do estilo foi o jornalista norte-americano Hunter S. Thompson. O termo foi cunhado por Bill Cardoso, repórter do Boston Sunday Globe, para se referir a um artigo de Thompson. Segundo Cardoso, “gonzo” seria uma gíria irlandesa do sul de Boston para designar o último homem de pé após uma maratona de bebedeira.

    O mais famoso texto gonzo é “Fear and Loathing in Las Vegas” (literalmente “Medo e asco em Las Vegas”, lançado no Brasil em 1984 pela editora Anima como “Las Vegas na Cabeça”), originalmente uma matéria sobre uma corrida no deserto, a Mint 400, encomendada pela revista Rolling Stone. Thompson gastou todo o dinheiro com drogas e álcool, fez enormes dívidas no hotel, destruiu quartos e fugiu sem pagar. Não cobriu o acontecimento e, no lugar da matéria que deveria escrever, descreveu o ambiente sob seu ponto de vista entorpecido e virou o precursor de um novo estilo jornalístico.

    O jornalismo gonzo é por muitos nem considerado uma forma de jornalismo, devido à total parcialidade, falta de objetividade e pela não seriedade com que a notícia é tratada, fugindo a todas as regras básicas do jornalismo. O estilo vigora até os dias de hoje e ganha maior número de adeptos entre jovens, que se interessam pela narrativa literária de vivências e descobertas pessoais em situações extremas ou de transgressão. Se o jornalismo gonzo é ou não um modelo jornalístico, se é subjetivo demais ou se não é digno de crédito, são questões que permeiam o ambiente acadêmico.

  2. Olá! Estou fazendo o meu projeto final da faculdade sobre Jornalismo Gonzo. Estou procurando artigos do Hunter thompson será que, vc teria alguma coisa do tipo?

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